27/04/2011

"Não existe nada mais difícil que o estrangulamento do amor. O coração fica ali apertadinho por entre os pulmões cheios de ar, suspensos, e a cara vermelha, as bochechas evidenciando os capilares, a cara assustada, suspensa que nem pulmões. Mas era assim que vivia aquela mulher; não que lhe restasse amor algum, não que estivesse sozinha. Aliás, conhecera o homem com essa mesma cara suspensa - a estátua do museu com a mão à frente da boca, pálida -, sempre se conhecera de cara suspensa. Ele beijara-a no museu, o beijo suspenso que pensara libertá-la de si mesmo. Sete anos depois a mesma cara, o mesmo beijo no museu: fim-de-semana sim, fim-de-semana não numa repetição cadente; e a mesma estátua de mão à frente da boca."


Stephen Rudyar, Contos Dispersos