18/01/2010

"Criem-se em suma as elites locais, capazes de dirigir com espírito largo os negócios concretos da região, de civilizar o povo com quem estão em contacto e de inspirar as decisões do governo central; e o Estado, ao mesmo tempo, que chame as associações a colaborar com ele [...] Tudo isto significa, em resumo, descentralizar - mas descentralizar...pelo espírito. O espírito é tudo. Não curemos de obter o efeito - só por meio de reformas legislativas, políticas e formais. Se descentralizássemos no código, sem cuidar de descentralizar nas almas, - ou sucederia novo fracasso, como em 1878, ou adicionaríamos ao grande Estado outros estadinhos omnipotentes com seus ódios de campanário e com a mesma espécie de banditismo que se manifesta nos largos bandos. Enquanto à maioria da gente honesta faltasse perseverança e organização cívica para regerem os negócios da vida comum, havia de tripudiar no município a mesma casta de habilidosos que domina a política do grande Estado. A reforma, por isso, só começará quando nas cidades, nas vilas, nas aldeias, dessa "vasta granja da capital chamada as províncias" (Herculano), houver grupos de cidadãos honestos decididos a contar consigo próprios, dispostos a combater no seu caminho a omnipotência das clientelas, a criar falanges de reformadores que dirijam os serviços de geral interesse, repelindo o polvo do centralismo dos vários redutos de que se apossou. Criar o espírito descentralista, o gosto da iniciativa na vida social, o da actuação na cooperativa e na sociedade escolar, na oficina e no sindicato, na assembleia provincial e no município: eis o que importa (...)"
António Sérgio, Águia em Junho de 1917.