26/10/2009

Fim do Bloco Central?



Quando Maria José Stock publicou na revista Análise Social (ICS) um artigo sobre a génese do Bloco Central em Portugal, inaugurou-se uma série de estudos que marcaram a ciência política em Portugal, seu estudo, reflexão e participantes. Principalmente aquela ciência política que logo tratou de conceber os partidos à laia da "sem-vergonhice" que é a política, empurrando como comentadores uma opinião pública que, já de si desconfiada, mais ainda o ficou em face da democracia. Democracia que já nessa altura indicava um movimento partidarizante (no que de pior esse movimento tem), manchando o louvor que foi a entrega simbólica, formal e institucional do poder do MFA para os partidos. Entrega essa a que se atribui o carácter top-down da institucionalização dos nossos partidos, com o Estado como parideira.


Mas a fabulosa análise de Maria José Stock principia a realçar os alvores de um sistema partidário que se foi fugindo das franjas e, tal como nos sistemas citáveis, acabou por se tornar coligação em 1983. E muito bem foi porque em tempos sombrios se não existir consenso entre homens com sentido de Estado que dê para pilotar o barco, muito mal estaríamos.


O estudo coloca ênfase não só na génese do centrismo político como na organização dos partidos coligados em 1983 (PS/PSD), suas raízes políticas e projecto programático à altura; a coincidência em certos parâmetros, tais como a base conceptual das géneses organizativas - que se colocam entre as visões de Duverger, Charlot, Neumann e Kirchheimer - levam a autora a considerar que a coligação de 1983 era inveitável, não apenas pelo cenário político como pelo arranque do processo de negociação e entendimento.


Hoje poderemos entender o Bloco Central não como algo extático, apenas dependente do cenário coligativo interpartidário, mas como aglomeração de uma cultura política de cariz governativo que encontra no PS e no PSD estrelas de um processo democratizante; estrelas essas que, para além de terem garantido a normalidade dos primeiros anos de transição democrática, também se serviram do seu poder gravitacional para concentrar à sua volta uma série de planetas e tantos outros asteróides para se fixarem como o centro do nosso sistema partidário.


Podemos falar de um fim do bloco central no actual cenário político e parlamentar? Não creio. É facto histórico - não consumado - que em períodos de crise económica anunciada, as franjas passam a partilhar o poder com a maioria (veja-se o fenómeno British National Party). Depois ainda são o PS e o PSD detentores não só de quase todas as câmaras municipais, o que se traduz em implementação territorial, como continuam a ser os representantes máximos de uma moralidade que tem raízes nas nossas próprias cultura e história políticas.

21/10/2009

Da Frase


Saramago falou não de um pedestal, como muitos quseram crer, mas de uma bancada entre os homens. Jus lhe seja feito por pensar e escrever em português, por ser um dos génios da literatura actual. Direi que não fico surpreso com a frase visto que existe uma montanha de livros citáveis e não citáveis, até muito anteriores ao próprio Saramago, que dizem o mesmo. Olha busquem lá um Thomas Paine ou um biblioteca de antropologia e sociologia e estará lá tudo; para os menos afoitos ainda existem aqueles livros de "auto-ajuda"/"new wave" que agora abundam no mercado e que exploram todo esse tema da culpa e da responsabilidade do dogma judaico-cristão na vida do Homem comum de hoje.

Surpreso fiquei com as declarações de alguns que ainda entendem o mundo como aquela dicotomia entre trabalho e capital, outros entre Deus e demónio; pois ambos se esquecem do Homem que fica pelo meio exercendo a sua liberdade, umas vezes obrigado pelas circunstâncias históricas, outras por um qualquer destino. Porque quem ingressou "naquela companhia" como disse Saramago, talvez tenha exercido um poder absoluto, tal como outros que ingressaram noutra companhia em que ele próprio esteve e está. Porque quem quer mudar quer algo para si em troca, nem que seja o de utilizar o poder que esteve nas mãos dos outros de uma forma ainda mais cruel para castigá-los. Essa é a história da Bíblia, que mais não é do que o relato dos homens em busca do divino para fugir ao demónio deles mesmo.

20/10/2009

Ser, Dever-Ser e Nada


Comecemos pela afirmação de que a filosofia é um sistema que determina a acção política. Se assim for temos a dizer que os actores políticos seguem racionalmente um sistema filosófico, determinado por uma certa cultura e uma certa vivência; ora, teremos a considerar que os actores políticos procuram primeiro que tudo o dever-ser, ou seja, ver o futuro como algo incompleto e que o sonho se deve buscar através de um determinado sistema de pensamento. Isso é o que parece ter acontecido nos sistemas políticos fundamentalistas e ortodoxos como foi o caso do Reich de Hitler, das repúblicas soviéticas, ou nos grandes projectos políticos como a construção da União Europeia.

Mas tal como todos os projectos políticos existe o lado da acção dos homens, dos desejos, dos grupos, das ambições e dos interesses que, ou muitas vezes parecem contrariar os objectivos, ou muitas vezes patrocinam outros sem o saber. Tudo neste caso estará nas mãos do tempo e dos homens. Neste nível falo de um ser, ou seja, de um estado que se aproxima do real, que se cumpriu e que, apesar de por vezes precisar de um sonho, não vive puramente em função deste. Um D. Sebastião teria recusado partir para Alcácer-Quibir se soubesse do perigo de querer viver um sonho sem acautelar o que a sua morte causaria, pois ele nem ninguém tem o poder de perceber a fundo as intenções do que está independente da sua existência. Continua a ser assim hoje em todas as decisões políticas, quer sejam elas instrumentos de uma macropolítica ou meros remendos para situações inesperadas e com as quais não aprendemos a lidar.

Pode-se também dar o caso de que não exista plano algum para servir um dever-ser ou um ser contínuo; aí teremos de concluir que o Homem se vê perante um nada, onde tudo é possível, das maiores atrocidades às grandes obras.

16/10/2009

Maltês (Maltez)

Viajar, voar, viajando,
Porque terra se não tem,
Mas em palavras do linguarejo,
Se firma raíz no tempo.


Outubro 2009

09/10/2009

O Homem Cordial

Para que melhor possamos entender as andanças dos homens é preciso primeiro que analisemos os seus actos como contidos num universo próprio. E como todo o universo ele tem uma continuidade de acontecimentos, de destinos, de coisas explicáveis e de outras tantas inexplicáveis; de pensamentos reflectidos sob o olhar atento do tempo histórico; de pensamentos que rasgam o tempo e permanecem sem princípio nem fim; de acções que rasgam ideais e de ideais que comprometem a acção.

Pode ser que muitas das vezes a acção venha depois do sonho ou que a acção seja o contrário do sonho. Serão eles perseguidos pela exactidão do racionalismo de um Descartes ou entregar-se-ão às emoções, mostrando que afinal o Espinosa tinha razão? É que em todo o racionalismo existe idealismo e em todo o idealismo existe uma dose de racionalismo que os permite serem homens; homens de acção, actores do mundo da política. Então pode ser que no meio disso tudo vejamos os dois mundos do Santo Agostinho: uma obra de Deus que tudo cria e uma obra de homens que tudo tenta copiar, não para ao primeiro agradar mas para se cumprirem. Ou que não vejamos dicotomia nenhuma e pensemos que o Homem tem tanto de espírito como de carne e é assim que ele age; se assim concluirmos, teremos de aceitar que o Homem está predestinado a nunca resolver dicotomia ou complementaridade alguma, mas apenas a viver, sendo Deus nesta vida e demónio noutra.

08/10/2009

Do Tempo dos Portugueses

Quando o silêncio é a única fonte, os homens param. Param esperando que um qualquer fantasma os leve. É um esperar lento mas turbulento, torcido e frágil pela sua inquietude. Porém é nessa inquietude que se resume toda a espera. Um esperar pelo dia que chega mas realmente não vem.

Então antecipa-se para que o presente não doa; que é dor de estômago fingindo coração; dor que atravessa em cruz o peito inquieto em espera; dor que fica inscrita mas para que ninguém veja; dor de cegos, dor de surdos nos intervalos do tempo injusto. Tempo em parcelas quando todo o tempo é um continuum esperar.

Sem acção em vista, sem ter sequer a ideia que errar faz parte dos planos. Vive-se assim o tempo dos portugueses em artifícios de dor.