30/09/2009

"E não haveria para os outros, os que não se rendiam, o único recurso de emigrar, não para uma Europa corrompida, não para um Oriente tão corrompido praticamente quanto a Europa, não para uma África demasiado próxima e já em decadência cultural, mas, quando a ocasião se apresentou, para uma viagem à América, sobre a qual poderia um Thomas More ordenar intelectualmente o que instintivamente faziam os marinheiros, os aventureiros portugueses e, entre eles, os sisudos, calmos e precavidos cidadãos do Porto, ansiosos de poder renovar em outros mundos as liberdades de sua terra? Esses se salvavam, porque ficavam fiéis às duas palavras de ordem, aos dois signos iniciais de Portugal: a acção e a saudade. Mas, para os que se deixavam ficar, só havia o ver aproximarem-se cada vez mais as soluções da melancolia, da loucura ou do suicídio.
Retiram-se para quintas distantes, onde chegue um mínimo de notícias do mundo, isto é, da Corte, os que não podem suportar que o reino que fora a esperança de Cristo se estivesse despovoando não ao apelo da cruz, não ao chamamento da missão, mas ao "cheiro da canela" e ao tinir dos míseros pardaus que já iam correndo por Cabeceiras de Basto. Retiram-se para Arrábidas, onde vão ser ermitães e ter pelo menos o consolo daquele mar e daquele céu e daqueles longes de paisagem que nunca faltam a quem é triste em Portugal, os que, por não terem podido empregar a sua mocidade ao serviço de Deus, a matam sob a disciplina e o hábito feito de velas velhas e, queimando seus versos, só têm o recurso de chorar "por não haver tão mal cantado". E retiram-se para entre árvores que ninguém corte e de que ninguém venha sequer colher o fruto os que percebem quanto em desacordo com o mundo à volta estavam eles quando, em lugar de pensarem nos ganhos materiais, se dedicavam a defender Diu cercado ou, mergulhando sob as ondas, lhes sondavam fundos e determinavam correntes ou, pacientemente e gostosamente e artisticamente, desenhavam e coloriam conhecenças de costa.
Ou então, ainda mais melancolicamente, com o Hospital de Todos os Santos os vendo já como de boa presa, os que nem se retiravam nem emigravam e ficavam, perto demais da Corte, longe demais de seus amores, percebendo como dia a dia se iam dissociando como a sua personalidade se desfazia, como, espectadores de si próprios, se viam embarcando no largo rio de perturbadas águas e, ao mesmo tempo, ficavam nas margens olhando o barco que se afastava; sob o impulso de estranhos remos, remos de incumprido amor e de quebrados fados; e ao impulso de estranhos remadores, os que não tinham nem saudade bastante para sua acção nem acção bastante para sua saudade."
Agostinho da Silva

28/09/2009

Povo de Suicidas

O povo é quem mais ordena e o povo capitulou a maioria absoluta do PS, criando-se um cenário que durante a campanha já mostrara a confusão entre maiorias parlamentares, absolutismo e asfixia democrática.

O resultado de ontem foi uma chuva de meteoros que acabou por assolar todo os partidos: o arranjo parlamentar fica difícil, difícil ficará ainda mais resolver as duas crises em que estamos mergulhados. Pois ontem não foi jogo de futebol do mata-mata, ou uma partida "rodinha bota fora" como todos os líderes partidários quiseram fazer crer; pois ao contrário de Voltaire, a abelha não é simplesmente uma mosca vivendo na colmeia, ela é abelha de génio. Por isso a eleição de ontem foi antes de tudo a mostra de que Unamuno tinha razão quando falava de Portugal como a comunidade dos suicidas.

24/09/2009

Voto útil? Não, Obrigado!


No domingo não voto. Não porque o Homem revoltado que há em mim esteja em gestão, mas porque simplesmente ultrapassei a dúvida que tinha em relação ao voto em branco. Dúvida essa que era afinal metafísica. Não vou votar não porque me apeteça ficar deitado no sofá, vendo o arraial passar, mas porque penso que não votar é em Portugal um acto cívico; uma mensagem directamente enviada contra as irmandades partidárias, contra as hostes dos que se pensam vencedores serem vencidos, contra uma ideia de que a democracia se vive apenas nos partidos e pelos partidos, contra os bichos papões que continuam a definhar o Estado e a sociedade, contra esta campanha onde não vi mencionado o papel de gestão do todo que deve ser a política, contra os soundbytes das agências de marketing, contra os que se pensam anti-sistema sendo os maiores vigilantes dele.


Queria encontrar nos partidos aqueles cidadãos de ética, com a coragem suficiente para enfrentar as contra-correntes e, também a partir delas, melhorar a pilotagem da democracia. Por isso se eles querem voto útil eu faço ali como o Zé!

17/09/2009

Manifesto Portugal


Talvez exista um outro Portugal que busca refazer o outro em que vivemos; talvez nesse Portugal os homens de vontade tenham outros nomes, outros apelidos e outras histórias para contar; talvez nesse Portugal nos esqueçamos do que nos doi ou doeu, transformando isso em saudades de um futuro que acontece num presente contínuo; talvez nesse Portugal todos nos sintamos portugueses e nesse Portugal não estaremos plantados em solos poucos férteis, sendo sementes voando pelo mundo.


Nesse Portugal viveriamos uma oitava acima deste, numa democracia do espírito, pela justiça de nos encontrarmos a nós mesmos encontrando a comunidade. Nesse Portugal o Estado não seria mero instrumento de desavenças, honrarias, projeto inacabado que com tanto afinco tenta amparar tudo e todos sem se amparar a ele mesmo; um Estado imposto pelas ideologias do momento, tentando perseguir outras que estão por vir. Nesse Portugal as ilhas de conhecimento estariam ao serviço da comunidade, servindo-a para se servirem a elas próprias, bebendo a sociedade, sendo bebidas por elas. Nesse Portugal os jovens seriam encaminhados por mestres que os não quisessem encaminhar, soltos para aprender o que o mundo lhes pudesse trazer, ávidos de serem eles mesmos, sem as amarras dos enredos novelísticos da política e da partidocracia, dos "gajos porreiros", da empregomania e do mercado em que estão enredadas as escolas.


Nesse Portugal nem tudo seria perfeito mas pelo menos poderíamos dizer de nós mesmos orgulhosos por pisar as pedras das calçadas sem olhá-las de soslaio.

14/09/2009

Da Política Externa Portuguesa

Entre a gestão de dependências e as autonomias vãs, ambas próprias da globalização, Portugal vai tentando sobreviver como cultura e sociedade. Cultura aprisionada entre o devir da europeização e as contradições da globalização. Sociedade dispersa pelo mundo mas em que no seu território continua sofrendo as consequências das mais variadas colonizações e da dificuldade em gerir a economia sem recursos.
Como pequeno Estado Portugal deverá continuar a jogar o jogo das grandes potências restando-lhe aqueles espaços onde essas mesma potências não jogam. Esses são os espaços definidos pelo nosso tempo histórico e pela perpetuação da nossa cultura pelo futuro.
Por isso devemos focar-nos no estabelecimento de um tecido industrial auto-sustentável, ciclicamente português, capaz de promover a exportação em quantidade da nossa excepção. Depois será apoiar projetos como a cidadania lusófona que para além de promover um novo espaço de circulação baseada na Língua, faça crescer o nosso Atlãntico Sul em academias e ilhas do conhecimento - elemento daquele soft power de uma globalização pacífica. Só dessa forma a nossa excepção permanecerá no tempo, mesmo que um dia perca o nome de Portugal.

11/09/2009

Numa tarde de Outono,
Floresceu o que não florescia,
Perdido pelo momento,
De uma folha caída em soluços.


Setembro 2009

04/09/2009

A Terra Não Precisa de Leis


Se a terra precisa-se de leis, as leis não precisariam do Homem e desta forma a lei seria divina. Só a justiça se presta a tamanha divindade e só o Homem pode aspirar a ela. Claro está que o Homem também aspira à lei, mas se se prolongar nessa busca acaba perdendo-se nas suas próprias limitações.


É por isso que a terra não precisa de leis para ser amanhada; apenas de Homens capazes de manejar as ferramentas certas para os momentos de calendário que se aproximam. Precisam de água e de quem as saiba tratar com a dignidade das mãos ensinadas, aquelas que apontam para o céu mas que se estendem pelo chão, dos olhos treinados que lêem os astros.


Só a terra tratada com a antecipada sabedoria pode trazer os frutos das estações e acertar o tempo dos Homens. Só a terra repleta dessa justiça divina pode cumprir-se como plantação e colheita.

02/09/2009

O Estado da Democracia Nacional I


A democracia é aquele regime que idealmente teria nascido na cultura da pólis grega. Democracia essa bem diferente naquela em que vivemos actualmente, pois tal como Platão dissera a filosofia e a política são commodities caras; e como commodities caras que vivem de tempo e reflexão, é preciso que poucos sejam sustentados por uma orde de (muitos) escravos. Muito mudou depois dessa configuração: os escravos acabaram para que a economia tentasse servir todos e deles se servir, massificou-se a representação através de um sistema que não dispensou as elites mas contemplou as massas, surgiram os partidos como peças centrais, não só dessa mesma representação como do processo democratizante; apenas uma coisa se manteve intacta: o preço da democracia.


O preço é aquela peça incalculável que define o quanto a democracia é importante para que todos possam participar; para que as instituições funcionem, para que os partidos possam continuar envolvidos, para que a sociedade civil tenha a sua liberdade, para que cada indivíduo possa sonhar com a comunidade de afecto sem um pai tirano. Na nossa democracia tudo isso acontece, com os timings e a natureza própria da nossa cultura. Por essa razão que todas as democracias são quimeras: criaturas que se tentam aproximar do ideário do passado, talvez real, talvez inventado.


Por isso é que os partidos nascidos entre nós na Monarquia Constitucional, não são mais do que espelhos das relações sociais, da cultura, do sistema de valores e dos micro-sistemas que se repetem, para o bem e para o mal da democracia; sistemas que não desaparecem com os esquemas das engenharias sociais e que permanecem no tempo (porque o tempo não é sinónimo de Homem), passam de regime para regime, de sistema para sistema.


Depois a nossa democracia também debate-se com outro porblema estrutural: o facto de se confundir a economia do Estado com a economia do privado, gerada aqui ou lá fora, com repercurssões quer nacionais quer internacionais. Primeiro devia-se entender a economia do Estado, não como uma economia paralela de favores onde para além do conjunto dos ordenados da administração burocrática (que ocupa mais de 50% das despesas), existe um punhado de interesses dormentes e de pessoas que se servem desse bolo, deveria ser uma economia autónoma do privado, para que este funcione livre, sem mais Marquês de Pombal. O privado, que em Portugal definha a olhos vistos (principalmente aquele tecido industrial que vem já da década de 1960), não poderá continuar a sustentar o sistema actual; as inicitivas governamentais continuam a ser um escape do espetáculo televisivo e escondem realidades que não são enfrentadas como a dívida externa, ou ainda a mentalidade de que o desemprego combate-se com iniciativas estaduais. Parece que nunca nos preocupámos em entender que o Estado não pode ser o sustentáculo de toda uma sociedade, pois talvez falte apelarmos à comunidade.