26/08/2009

Haverá um dia em que os muros que separam os quintais e os terrenos, caiam. E ao caírem ninguém os irá reparar. Será nesse dia que o Homem, já sem querer procurar a comunidade, encontre-a, de supresa. E será uma comunidade mais inteligente e iluminada pois não se baseará na fronteira da pertença.

25/08/2009

Diálogos VII

A justiça não é algo criado pelas mentes dos homens, mas sim pelo amor que os homens têm pelo infinito e pela ordenação caótica desse infinito. O que primeiro aconteceu foi que a justiça já lá estava - pensou o homem - e, vai daí, julgou dar-lhe um nome e incluír nela a noção de um e de zero. Ora o um e o zero sempre estiveram juntos e sempre ocuparam na mente dos homens o espaço necessário para a busca da reordenação continuada do universo. Mas tanto o um como o zero não se ordenam, apenas existem erraticamente no caos - o que se dirá que esse caos é uma outra forma de ordenação que apenas não conhecemos. Ora a justiça é o nosso caos, para que possamos entender ou tentar perceber, o caos que se passa fora das nossas mentes - o caos que só nós entendemos e que se apresenta como ordenado nas nossas mentes. Então a justiça não é um anseio pois apenas acontece pelo infinito ao lado do caos das nossas mentes, tendo os nomes de ordem e organização.

24/08/2009

Da História do Bloco Central

"all falls apart; the centre cannot hold."

W. B. Yeats

22/08/2009

Hastear de Bandeira


Depois de bandeiras monárquicas hasteadas e dos soundbytes por elas provocados, continua a não fazer-se um debate verdadeiro mas simples sobre a definição e função dos regimes políticos. Um debate sem os tais fantasmas que assolam as duas faces da moeda. É que no decorrer da nossa história e, principalmente, da história da nossa cultura política os republicanos sempre introduziram a ideia falaciosa de que o fim da monarquia seria um processo natural da história dos Estados, de que uma vez introduzida a república seria impossível um retorno à monarquia (o que os casos inglês e francês já tinham provado errado e que o espanhol em pleno século XX também provaria); que a monarquia era identificável com os erros do Ancièn Regime e que contrariava os anseios dos primeiros processos democráticos (como seria a introdução do sufrágio universal completo ou restrito). A falácia estaria cimentada nas ideias positivistas de que tudo o que o futuro traria seria sinal de progresso e não o contrário, logo a república seria resposta aos anseios de uma nação em face de uma crise económica (que eclodira numa versão financeira em 1891 - em paralelo com o que os republicanos brasileiros em 1889 tiveram de lidar ao chegar ao poder) e de uma identidade nacional manchada não apenas pelo orgulho (caso do ultimatum inglês) como por um sistema bipartidário com origem no executivo, corruptível e alimentado pelos influentes locais ou caciques do partido comandados a partir de um paradigma de partido de governo.

Os republicanos sempre se esquecem dos erros que continuaram pela I República fora, aclamando esse regime como génese da introdução da democracia em Portugal; ora temos de nos lembrar do seguinte: o caciquismo eleitoral que se manteve, a crise económica, a manutenção de um regime de quase partido único, a manutenção de certos vícios e comportamentos políticos vindos do período da monarquia constitucional; erros que conduziriam ao 28 de Maio de 1926 e à legitimação em 1933 do Estado corporativista.

Quanto ao "outro lado da barricada", apesar das críticas - que mais não são do que apontamentos históricos -, os monárquicos continuam sem perceber que a mudança de regime de pouco ou nada alteraria o rumo de Portugal. Defendem que a família real e a Coroa seriam elementos viáveis para o respeito perante a política, o Estado e as instituições e seriam um canal perfeito para a re-legitimação da democracia através de um carisma atribuído à figura do chefe não eleito. Ora reconhecendo que a questão da re-legitimação da democracia portuguesa é um factor preponderante na busca de uma comunidade melhor e mais saudável, reconheço também que esse é um problema actual das democracias ocidentais. Por outro lado não penso que seria a monarquia a resposta a todos os males nacionais; basta recordarmos alguns episódios da nossa história como a "ignóbil porcaria" de Hintze Ribeiro ou o bipartidarismo doentio que mais se parecia com o actual bloco central.

O que me preocupa não é a escolha do regime, mas sim do sistema que nos continue a conduzir por mares do futuro; de termos pessoas capazes, formadas sob a égide de uma ética (chame-se-lhe republicana ou não) e de uma nova cultura política verdadeiramente democrática - a democracia na mente de todos, sejam eles republicanos ou monárquicos.


p.s. por isso me congratulo com a campanha globalista do António Costa em Lisboa.

01/08/2009

Da Democracia

(...) A questão coloca-se se, e quando, a democracia é, em si mesma, na sua força racional,incapaz de solucionar os problemas que se colocam a ela. Ou seja, os problemas não apenas da sua legitimidade - como sejam os da representatividade, do sufrágio universal, da electividade, do carisma da liderança, do governo da minoria, do sistema partidário - mas sobretudo daqueles que ficam, são reciclados, ganham novos nomes e hábitos. Falo dos comportamentos socialmente aceites que de uma forma ou de outra se opõem à conduta democrática, mas que por terem raízes nas mentes dos indivíduos, que sob a égide do Estado são cidadãos, tornam-se sobreviventes de uma cultura sócio-política; uma cultura masoquista, de auto-flagelamento, que definha a igualdade na diferença e perpetua a injustiça. E são esses comportamentos - ontem caciquismo, mandonismo e coronelismo, hoje clientelismo e corrupção - que escondem a verdade por detrás de engenharias socializantes nunca concluídas ou nunca eficazes, pois o que falta fazer na democracia é a democracia de todos os homens, a democracia nas mentes dos homens que querem fazer algo pela comunidade.