29/07/2009

Joana Amaral Dias por Coimbra


O Francisco lá fez birra e a Joana poderá ter de se ir embora, tal como o Zé passou a ir às reuniões do secretariado do PS Lisboa pois lá è que passava a fazer falta. Mais uma mostra de que a política, mesmo no Bloco de Esquerda, é à portuguesa e funciona à conta das promessas de emprego no Governo ou na Administração Pública. Tal como Guterres que tentara incluir uns quantos bloquistas insatisfeitos na chefia da Adsministração Pública, Sócrates procurou substituir Manuel Alegre por alguém que preenchesse a alma política deste; enganou-se, pois não é com a trafulhice do costume que se consegue comparar os resultados da sondagem com a revolta do poeta.

Joana, que nesta campanha (sendo verdade) e, seguindo os ditames da Ciência Política, se tornaria uma candidata pára-quedas, poderia revolucionar o Ministério da Saúde com a sua formação especializada em psicodrama, talvez de sobeja importância para gerir o conflito pessoal com o Francisco depois da campanha presidencial de 2006; é que por cá as Joanas não podem apoiar os Mários, mesmo que seja nisso em que elas acreditam pois os nomes e as etiquetas partidocráticas são mais importantes do que a liberdade cívica de nos acharmos globais. Em Portugal o personalismo continua a vencer 1-0, apesar das frases dos poucos liberais de espírito.

28/07/2009

Da Cidadania Lusófona


Fico contente com a inclusão, no programa do PS para as legislativas, do arranque do processo da cidadania Lusófona. Digo "arranque" pois o projecto inicial já não é novidade para certos círculos de informação e porque ele dependerá não apenas do governo português, como de um consenso parlamentar. Outro entrave será a negociação intergovernamental com os outros países da CPLP, que, fora Cabo-Verde, torceram o nariz ao projecto inicial lançado pelo Fórum dos Parlamentos de Língua Portuguesa (que tornar-se-à o órgão parlamentar da CPLP).

Por isso a parangona que anuncia o Diário de Notícias fica-se pelo promissor, pois tal como afirmei sobre o assunto na conclusão de um relatório feito no ano passado: "(...) deveríamos continuar esse projecto que um dia Sérgio Buarque disse ser o de viajarmos pelo mundo fora, de arquipélago em arquipélago, de não termos terra e, tal como disse o outro Buarque seu filho, sermos heróis e reis fazedores da lei que nos obrigasse a ser felizes. Seria apostar no projecto da Cidadania Lusófona, tal como Cabo-Verde já o fez (...) na criação de um outro patamar de liberdade com a livre-circulação das gentes de língua portuguesa nos vários arquipélagos criados pelo português (...) fora da maquinaria estatal mas ao serviço dele, na busca da melhor comunhão."

Se passámos estas últimas décadas do nosso pós-colonialismo a exportar as melhores condutas do Estado de Direito através de processos de aprendizagem democrática, passemos agora a abraçar um projecto que nos permita criar um espaço de desenvolvimento de cultura lusófona exportável, esse elemento essencial dos pequenos Estados na actual sociedade internacional.

23/07/2009

"whatever Socrates may say, it remains the case, as any one can see, that people who stick to philosophy become strange monsters, not to say utter rogues; even the best of them are made useless by philosophy. Socrates admits that this is true in the world as it is, but maintains that it is the other people who are to blame, not the philosophers; in a wise community the philosophers would not seem foolish; its is only among fools that the wise are judged to be destitute of wisdom."

Bertrand Russell, A History of Western Philosophy

17/07/2009

O Um é o Todo e o Todo é Um


Se o um é o todo e se o todo é um, na sociedade origina-se uma dada cultura e nessa cultura emergem subsistemas de ordenação e reordenação dessa cultura, que apenas podem ser espelho da mesma e da sociedade em que se originaram. Depois os subsistemas, tal como os indivíduos, são a soma desse conjunto sociedade-cultura mais as necessidades e arranjos do presente. Tal como a História tenta descrever o passado como um todo reportando-se ao conhecimento do presente, também os subsistemas só funcionam com essa sociedade e com essa cultura que o enformam somando as vicissitudes do presente.

A política como subsistema de ordenação justa da máquina estadual, está para a Nação como a saúde está para a mente; uma mente repleta de justiça é uma mente saudável. Por essas razões é que cada sistema democrático, ditatorial, autocrático, absolutista ou tirânico deve ser visto no seu espaço limitado pela sociedade e pelas culturas que o definem e não por leis gerais da natureza que possam ser aplicadas unidimensionalmente. Podemos fazer comparações, está claro, mas sempre com a pretensão de que essa comparação se tornará ridícula aos olhos de quem a destronará.

Podem passar o resto dos tempos a importar subsistemas formais e informais mas, a cultura e a sociedade em si estarão lá a enformar o mesmo subsistema importado, tornando-o único aos olhos da fonte exportadora, mas semelhante aos olhos da fonte importadora. É um jogo sistémico com duas direcções; o problema é que um qualquer subsistema demorará muito mais tempo a determinar a cultura, do que o contrário e, quando isso acontecer, já a cultura contaminou-o. Porque tudo é feito e gerido pelo Homem, o um que é ao mesmo tempo o todo.

É nesse equilíbrio que deve ser escrita a História, para que se busque a unidade do relato e para que se ultrapasse a ideia de que apenas as leis deterministas e gerais definem como se fazem as sociedades. Em cada equilíbrio da sociedade subsistem todas as unidades do todo e existe esse equilíbrio. As mudanças ocorrem dentro desse equilíbrio e reportam-se a modificações estruturais que redefinem o todo, transformando todas as unidades à sua semelhança. E neste estádio, nesta contemporaneidade, é ainda a política a única capaz de reordenar esses equilíbrios; ela não cria, apenas garante a justiça.

O problema coloca-se quando esses subsistemas se auto-inventam como cancros, produtos daquela matéria mal ingerida somada às micro-culturas que se repetem pelos tempos e que ditam as relações entre os indivíduos; as culturas apreendidas e repetidas em teias clientelísticas, de corrupção, de compra de poder, de influência ou de votos. Micro-culturas próprias dos partidos: das “escolinhas” para as juventudes partidárias às escolas para os seniores tornados barões e mandarins pelo “mercado dos votos” intrapartidário, parafraseando Max Weber. O problema coloca-se quando, ao somarmos os gastos dos subsídios e os ordenados da função pública à trafulhice da economia paralela que sobrevive à custa dos gastos públicos, ficamos com cerca de 75% do erário público à deriva, sem que o português comum perceba o seu lugar numa sociedade que, ao invés de buscar apenas a sobrevivência económica, passe a sonhar com a comunidade da ética, da justiça e do amor.

02/07/2009

O Parlamento de Hoje e os Seriados Televisivos


Não prefiro seguir o pessimismo que ouvi do António Barreto, de quem até gosto muito. Prefiro encontrar nos episódios do Parlamento de hoje aquela comédia boa que meia volta repete na RTP Memória. Porque gosto de rir dos seriados quixotescos que são ainda melhores que Benny Hill ou Alô, Alô pois os ultrapassam no seu elemento de realidade.

Por isso é bom rir dos que querem rasgar tudo, dos que gostam do teatro mudo, de um Jaime Gama que parece que não almoçou bem, do desfile de auto-contemplativos. Ou ainda do post-momentum que se materializou na entrevista de Manuel Pinho na Sic Notícias, com a mulher a quem correu mal uma cirurgia oftalmológica. Temos de tudo para rir e espero que seja esse o elemento mágico da nossa democracia.

01/07/2009

Qual País?


Se a política foi inventada como forma de não sermos engolidos por um príncipe qualquer sem formação nem qualificação para exercer tal cargo, porque é que continuamos perdidos neste país onde parece que os males se dissipam com os discursos dos porta-vozes que não são mais do que proto-políticos desta aldeia tornada cidade pelo foral de um rei estrangeiro? Porque continuamos impávidos neste continuar Portugal em Estado sem graça, com uma economia que não poderá sustentar primos, sobrinhos e cunhados agora virados fidalgotes com vilas e palacetes perdidos pelas estradas de terra batida? Porque é que continuamos num país onde a política atrofia o génio, repulsa o ser criador, receia os processos recicladores do Homem, onde a política tem caras e nomes que se repetem por gerações e onde essa mesma política enclausura os indivíduos no complexo de inferioridade que é próprio do seguidismo?

Um país onde a democracia perfila-se entre dois partidos que mesmo separados levam ao mais do mesmo em sistema híbrido: multiparty system com laivos de two-party system, sem deixar de passar pelo dominant-party system quando as maiorias absolutas trazem alguns elementos dos avós da nossa história política. Porque em Portugal os conscientes nunca quiseram fazer política e os poucos que tentaram cedo se enojaram das teias a que eram conduzidos; talvez porque aquele fazer política que está apenas ligado à história da política que enoja o bom-senso e a ética, se perpetuam por entre os discursos dos medíocres que ainda vão formando certos sectores dos nossos partidos.

Com o nosso barco pouco habituado a lutar contra as correntes só quando os ventos mudarem é que veremos mais alguma coisa, nem que seja quando até os tradicionalistas se prestarem a vender este bocado de terra a uma qualquer multinacional ou instituição intergovernamental que nos saiba governar, como gesto de uma enorme coragem nacionalista. No final, como próprio de um português revoltado e consciente, eu votaria sim nesse referendo.