19/06/2009

Noite e Dia

Olhando de soslaio,
Pelo deserto dos meus olhos,
Vi teus olhos em mil janelas,
Sóis imanentes,
E pela sala do lado,
Outras mil janelas,
Desta vez, escuridão,
Perdida pelo finito,
De uma atroz solidão.

Eram noite e dia,
Como frio e quente,
Terra e céu,
Água e fogo,
E tu mulher estendida pelo chão,
Vendo-me te vendo,
De soslaio,
Tal como no dia da criação.

Algures em 2009

15/06/2009

Mercado Paralelo do Poder


Depois de designado o mapa político europeu, com a continuada viragem à direita, falta a reeleição de Durão Barroso se se confirmarem as expectativas das grandes potências. José Sócrates seguiu os ditames da história da política externa portuguesa e preferiu o conceito de prestígio.

No contexto internacional o prestígio permite aos pequenos Estados elevar os seus interesses, pois tal como disse Políbio Valente de Almeida, pode dizer-se que há um mercado paralelo do poder que se situa fora da área autista do sistema. Neste sentido geral em que estamos a falar, o pequeno Estado tem, aparentemente, maior capacidade de manobra.

Se é nesse campo que Portugal poderá obter a tal maior capacidade de manobra, que se apoie Barroso, nem que seja para aumentar as instâncias de manuseamento da influência, esse elemento que Weber colocou ao lado do poder como forma de preservar a sua essência justa.

Paralelamente, Durão Barroso ainda não foi suficiente para ultrapassar o défice externo português, nem conseguiu evitar que entrássemos em contra-ciclo político. Talvez bastaria distinguir o poder de usufruir como somatório de todos os recursos que estão à disposição do Estado, daquele poder de usar entendido como a faixa de poder marginal que pode ser utilizado sem custos proibitivos. Só desta maneira poderíamos incluir Barroso no plano da nossa política externa, não esquecendo um plano macropolítico que nos permitisse viajar pelo mundo sem precisar da velhinha fórmula de Cline: pp = (C+E+M) x (S+W).

09/06/2009


Agora que o governo do PS parece ter entendido que algumas das suas manobras ministeriais, bem como a sua megalomania neste continuum hipotecar do futuro não resultarão numa renovação da maioria absoluta, começará um novo período pós-sondajocrático. Num presente sem cão-guia que vai de um espectro político ao outro, ainda bem que restam alguns homens de boa fé, aquele elemento precioso em tempos em que "nem Jesus Cristo teria soluções". Pois é preciso olhar para além dos números para escutar as pessoas. É preciso baixar desse pedestal que as maiorias absolutas dão aos partidos para que os responsáveis olhem os que cá vivem como vencedores de uma política do conjunto.

Por isso é que não foi o PPE castigado, nem os tais liberais que tinham empurrado o pessoal porreiro para a crise em que nos afundámos. Só em Portugal é que, na onda dos 20% à esquerda do PS, fez pensar a Sócrates que isso de ser neo-liberal e de ter um candidato atípico poderia levantar a máquina eleitoral e mobilizar um eleitorado que acabou não-mobilizável. É que o discurso europês continua solto, sem as rédeas da linguagem do cidadão comum que espera respostas empíricas que não se assemelhem à curvatura dos pepinos.

Talvez com as eleições do Benfica possamos construir um melhor mapa das previsões partidocráticas para as legislativas. Mas, talvez teremos Eusébio à boca das urnas apoiando a Manela ou o Zé, o que poderá desequilibrar a coisa e acabar com a força das previsões. Pelo menos a partir de hoje temos a certeza de que a maioria absoluta não é para gente deste PS ou deste PSD.

04/06/2009

Em Tempos de Campanha

A poucos dias da eleição para o Parlamento Europeu Nuno Melo aprende a pintar, que isto de pinturas é à séria; a Ilda entra no território dos feirantes e no meio de tanta k7 vende também a sua; Miguel Portas presta-se às arruadas com o grupo circense do Chapitô; Vital exalta-se com as emoções do bulhão; e, Rangel lá volta à sua região mater, agora melhor acompanhado dos que nos dias anteriores.

Continua o teatro e o desfile em tempos de campanha numa democracia que vive dos arquétipos e do discurso do voto útil. Talvez quando os peixes de águas profundas se elevarem a águas onde o oxigénio não é rarefeito, possamos espreitar as caudas e as barbatanas do que realmente se esconde. E aí a democracia se abra depois de um merecido pedido de desculpas pelas trafulhices todas que temos assistido. Por isso é que mais de 60% dos eleitores não votarão neste domingo; não vão escolher o voto útil, nem reconhecerão legitimidade à Ilda Figueiredo, ao Miguel Portas ou ao PNR, porque se há coisa que não mudou desde Bordalo Pinheiro foi essa grande porca que não parou de amamentar. Continuará, até que esta economia não se possa endividar mais.

03/06/2009

Por Hoje, Por Aqui

Seguindo à letra o que ouvi do João Gonçalves esta tarde na Bertrand do Chiado, de que se deve contrariar o amiguismo, esse fenómeno endémico do português, aproveito neste post para agradecer todo o carinho e amor ao Carlos Carranca e aos alunos da Escola Profissional de Teatro de Cascais. Porque só com esses dois ingredientes se consegue viver aquela amizade fraterna que não passa pelos interesses, mas apenas da troca e das lições de vida. Um bem haja a todos!

02/06/2009

Fado Mulato

Porque todo o português é oceano, valerá a pena ouvir o fado da Maria João Quadros, que o fado nunca foi português mas sim daquele mundo-alma por se achar. Porque todo o português é mulato, escondido pelos matos à espera de se descobrir, reencontro do amor vivido ou vencido entre continentes outrora ligados.