28/05/2009

O Triunfo da Política (dos Porcos)

O porco é um animal que se presta a comer tudo à sua volta. Sem hesitar e se a sua fome assim o exigir, é capaz de engolir o dono, que o tratou de engordar durante anos. Come-lo-à com o mesmo prazer com que se alimenta de bolota, milho, batata ou rações reforçadas. Come-lo-à pois é de seu desígnio comer, para depois, observando-se a hierarquia da vida animal, ser comido. Ao comer e ser comido o porco se cumpre.

Anteontem vimos como a carne de porco vem já embalada em porções desejadas e indesejadas, para que todos possamos escolher entre a verdade de um ex-ministro ou a verdade de um outro apoiante do bloco central. É que neste país onde o Estado até é capaz de criar o privado e onde as instituições todas nasceram a partir da legitimação do “cima para baixo”, não há espaço para outros animais brilharem.

Por isso continuamos neste triunfo da política que não é mais do que um outro triunfo dos porcos comilões, dos que enriquecem com a política, dos que não pedem desculpa, dos que vestem hoje preto e amanhã branco consoante o desfile de moda que melhor os convier.

25/05/2009

Morena do Mar - Dorival Caymmi

Ô morena do mar, oi eu, ô morena do mar
Ô morena do mar,sou eu que acabei de chegar
Ô morena do mar
Eu disse que ia voltar
Ai,eu disse que ia chegar,
Cheguei
Ô morena do mar, oi eu, Ô morena do mar
Ô morena do mar,sou eu que acabei de chegar
Ô morena do mar
Eu disse que ia voltar
Ai,eu disse que ia chegar,
Cheguei
Para te agradar
Ai,eu trouxe os peixinhos do mar
Morena
Para te enfeitar,
Eu trouxe as conchinhas do mar
As estrelas do céu
Morena
E as estrelas do mar
Ai,as pratas e os ouros de Iemanjá
Ai,as pratas e os ouros de Iemanjá

24/05/2009

Até na Voz de Maria Bethânia

Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder
O que não dá mais pra ocultar
E eu não quero mais calar
Já que o brilho desse olhar foi traidor
E entregou o que você tentou conter
O que você não quis desabafar
Chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar
E se perder e se achar
E tudo aquilo que é viver
Eu quero mais é me abrir
E que essa vida entre assim
Como se fosse o sol desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor dessa manhã
Nascendo, rompendo, tomando
Rasgando meu corpo e então
Eu chorando, sofrendo, sorrindo
Adorando, gritando
Feito louca alucinada e criança
Eu quero meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar
Explode coração

22/05/2009

O Que Não Tem Decência Nem Nunca Terá



Recebi, ontem, um telefonema. Atendi-o primeiro como indivíduo. Quando entendi que era para mais uma sondagem, desta vez para um órgão do Estado descentralizado, passei a entendê-lo como cidadão, não porque seja um acto cívico responder a sondagens, mas apenas porque a curiosidade aguça o engenho, elemento essencial de uma pertença estadual e democrática.

A entrevista, dos elementos que consegui reter, e de alguns conhecimentos que adquiri na área, não passou de uma simplificação que os actuais refazedores do Estado aplicam ao conceito de opinião pública, centrando-o nos números de uma qualquer liberdade poética.

No final perguntei se a dita sondagem estava a ser conduzida pelo pessoal técnico-público, ao que me foi respondido, em linguagem outsourcing, que era uma empresa a conduzir o mesmo a mando do tal órgão público. Não digo que órgão público era pois o que importa é que este exemplo se multiplica em tempos de campanha política. Os partidos no governo dos órgãos públicos utilizam os recursos de todos, para o melhoramento do seu programa político. O uso destes recursos em estudos, quer feitos por empresas contratadas, quer por pessoal administrativo a mando do chefão politizado ou do quadro posto pelo partido, permanece realidade do que não tem decência nem nunca terá, do que não tem vergonha nem nunca terá!

20/05/2009

Na Voz de Chico Buarque - Todo o Sentimento


Preciso não dormir,
Até se consumar,
O tempo,
Da gente.

Preciso conduzir,
Um tempo de te amar,
Te amando devagar,
E urgentemente,
Pretendo descobrir,
No último momento,
Um tempo que refaz o que desfez.

Que recolhe todo o sentimento,
E bota no corpo uma outra vez,
Prometo te querer,
Até o amor cair,
Doente,
Doente.

Prefiro então partir,
A tempo de poder,
A gente se desvencilhar da gente,
Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada,
Nada aconteceu.

Apenas seguirei, como encantado,
Ao lado teu.

Dois Poemas para Água


ATLÂNTICO

O nosso amor,

É o Atlântico,

Percorrido caravelas, aviões,

Braços esticados,

Nos porões, nas asas,

Espreitando água, luzes.

O Atlântico,

Em amor,

Colhido lagoa,

Crescido coração,

Numa ânsia de união,

Carne, lágrima, sal.



PELA ÁGUA

Ai, quanta vela,

Tanto barco,

No porto expectante,

E toda aquela água por correr,

Todo mundo,

Num pedaço de madeira,

Flutuante.

Ai, quanta nudez,

De tecidos transparentes,

No porto expectante,

E todo aquele corpo por correr,

Todo planeta,

Pedaço de memórias,

Música.

Ai, quanto de nós,

Guardado,

Sagrado,

Em malas de viagem,

Do quanto nós, beijo,

E da água nos corpos,

Em cascatas,

De gelo derretido.

18/05/2009

Diálogos VI

O Que São Futuro e Passado?

Como te disse antes, o presente não é nem soma nem resumo entre passado e futuro. Enquanto o passado se presta à horizontalidade, ou seja, à perpetuação da glória ou da mágoa em linha recta, o futuro é uma anti-realidade que se presta à verticalidade, pois terá como função cortar a linha de continuidade que vem do passado. Anti-realidade pois ainda não se viu, apesar de alguns o pensarem previsto. Ora o que cabe a nós, é sermos o centro dessa cruz que é feita do passado e do futuro, para que possamos criar a vontade divina de prosseguir contrariando o passado, para nos cumprirmos. O problema põe-se quando não somos agentes do presente, e vemos passar um futuro cortante sem respeito pelo passado. Eu digo, eduquemo-nos para encontrar surpresa tanto no futuro como no passado.


Como é Que Podemos Educar Para a Surpresa?

A educação para a surpresa passaria não só pelo fim dos tiranos e dos monstros que habitam em nós, como de uma consciência pela ânsia do agora. Só aceitando que somos uma pedra com a vontade de fazer montanha ou de rolar com calma tanto em rio lento como em mares bravios, é que poderemos fazer e saber o presente como contínua surpresa, como contínuo inacabado, onde o impossível seria o possível de hoje, para que chegássemos a questionar outros impossíveis longínquos. A educação para a surpresa seria aquela que trocasse a suprema moralidade pela justiça, o infalível pela falibilidade,a culpa pelo direito à aprendizagem continuada.

16/05/2009

Na política permaneceu poeta.

14/05/2009

O Papel de Portugal na Europa


Publicado Ontem em: http://olhardireito.blogspot.com/2009/05/o-papel-de-portugal-na-europa.html

Quando se apresentou o projecto de entrada de Portugal na então Comunidade Económica Europeia, as vozes dividiram-se entre o sim o não. As questões fracturantes dividiam-se entre a economia nacional e os aspectos ideológicos de cada grupo partidário. Enquanto os primeiros afirmavam a importância de Portugal entrar no comboio europeu, para modernizar o tecido económico, os segundos dividiam-se entre aqueles que temiam a infiltração dos chamados capitais estrangeiros e os que falavam na iminência do final da cultura portuguesa, definida no seu espaço próprio.

O grupo dos segundos esquecia-se da inevitável gestão de dependências que Jean Monet invocara duas décadas antes e que prevalecia como mote da integração europeia, entre potências ainda há pouco metrópoles de impérios coloniais. O que prevalecia para Portugal era a gestão dessas teias de dependência que nos ligavam ao mundo e ao mercado económico europeu; era, então, essa constante que guiava a escolha pela integração no projecto europeu.

Outra dicotomia, esta apresentada por Agostinho da Silva, colocava-se desta forma: seria Portugal que precisava da Europa ou seria a Europa que precisava de Portugal? Ao longo de todo o processo integrativo, a empírica tem-nos demonstrado que o primeiro pressuposto se sobrepôs ao segundo, visto que tanto os fundos estruturais como as constantes reformas sistémicas e do acesso a uma vida mais citadina e com maiores oportunidades, num regime capitalista, homogeneizante e de tendência liberal e anti-personalista, se impuseram em Portugal. Durante toda a dinâmica, as instituições democráticas e os grupos apoderaram-se de um acervo europeizante, ao que lhe podemos incluir a continuada caça aos fundos estruturais, a bruxelização dos partidos portugueses com a supranacionalização das suas estruturas representativas no Parlamento Europeu, o arranque dos new deals cavaquista e guterrista com a proliferação de clientelas tanto agregadas às obras públicas e às encomendas de estudos aos “amigalhaços” e “gajos porreiros” das empresas de consultadoria e advogados.

O que continua a faltar neste processo é um Portugal que seja a voz dos povos oprimidos da Europa, dos pequenos Estados, na criação de um G20 europeu contra o directório das grandes potências que continuam a comandar as hostes. Portugal tem de ser o comandante de um movimento que humanize a política e a economia, como diria o ex-eurodeputado Francisco Lucas Pires; pois, quando fomos capital de um império já éramos colónia e passámos a entender os mundos do Norte e do Sul. Tentemos uma Europa que se portugalize no melhor que temos, que é a própria natureza do português que é a do fazer-saber, sabendo fazer, com uma sociedade comunitarista, de partilha na justiça.

Resposta aos comentários que se lhe seguiram:

A questão da falência está também ligada às vacas gordas dos dinheiros estruturais. A questão é que a nossa dívida externa diária ultrapassa qualquer dinheiro que nos possam enviar, o que apenas vai tapando buracos ou adiando o fim das clientelas que giram em torno do Estado e dos partidos. Não existe uma consciência para a libertação das instituições e das empresas face ao Estado, mesmo com as tentativas medíocres de descentralizar serviços ou com as privatizações que se fizeram. Portugal já era colónia quando ainda éramos capital de um império, pois a grande questão nacional é primeiro a gestão das dependências e não esse federalismo que a nós não nos serve por sermos primeiro que tudo um dos raros casos de Estado-Nação na Europa (por isso não vale enganarmo-nos ao comprar modelos de outros); segundo uma boa base de educação e formação (e outra vez não digo a instrução que importámos dos franceses, mas a que deve criar pessoas conscientes de si e do seu bem-estar psicossocial); terceiro o fomento da saída dos portugueses que quisessem partir, para que eles possam viver o mundo, ensinando aos outros o humanismo do português, para quebrar com esta economia (que eu acho ser a melhor), mas que precisa de um modelo de redistribuição e de sentido de liberdade e humanidade. Todos os povos são sensíveis a isto, por isso é que falei no tal G20 europeu contra os desígnios das grandes potências no jogo de soberanias da UE. E depois ainda nos querem vender o federalismo; e nós compramos, pois, nem que seja para dizer que estamos a salvar a economia nacional. O problema é que salvamos "esta" economia, que é a que está centralizada no Estado, que não deixa ninguém respirar e que alimenta as clientelas do costume.

09/05/2009

As Maçãs Podres e Aquelas que Ainda se Podem Comer

Ex-ministros escolhem entre maçãs podres e aquelas que ainda se podem comer. É que com os filtros económico-técnicos das tipologias das maçãs e demais frutas da UE, a escolha foi-se diminuindo. Mas não só a ex-ministros é dada esta escolha, incluindo-se nela os ideólogos do bloco central, os burocratas que se alimentam dos vários regimes, os boys, dos que estando fora ou dentro pactuam para o mais do mesmo, para os que comem à mesa do orçamento, para as clientelas dos partidos e demais instituições democráticas. É que em tempos de desejado bloco central, as maçãs outrora podres, ganham uma nova casca e passam o controlo apertado de qualidade que decidimos importar.
O bloco central irá ficar com as maçãs podres e as que ainda se podem comer, as que estão por cair de maduras e as que jazem no chão da partidocracia instalada. Pois este bloco central é realidade com ou sem alianças pós-eleitorais; o que eu queria era o bloco central dos competentes, daqueles excêntricos com o bom senso e a integridade dos homens com sentido da unidade, mestres jardineiros plantadores de àrvores e não salteadores, ávidos de recolher aquilo que não é seu.

06/05/2009


“As Homer records, when Zeus, Poseidon, and Pluto inherited their father’s dominion, they divided it between themselves, Now, during Cronus’ reign human beings were subject to a law which the gods sanction even to this day and which is as follows: any human being who has lived a moral and god-fearing life shall on his death depart for the Isles of the Blessed and shall dwell there, and live a trouble-free life of perfect happiness; however, anyone who has lived an immoral and godless life shall be imprisoned in the place of retribution and justice, which is called Tartarus. In the time of Cronus, and in the relatively recent past during Zeus’ reign as well, living judges dealt with living people and passed judgment upon them on the day of their impending death, which made the administration of justice poor. So Pluto and the supervisors of the Isles of the Blessed came and told Zeus that the wrong kinds of people were getting through to both places.

"So Zeus said, ‘I’ll put an end to that. The reason the administration of justice is poor at the moment is that people are being assessed with their clothes on, in the sense that they come before the court during their lifetimes, and plenty of people with corrupt souls are dressed in attractive bodies, noble birth, and wealth; also, when it’s their turn to be judged, a lot of witnesses come forward and testify to the exemplary lives these people have led. All this impresses the judges.”

(…)

“You should join me (Callicles) on the road to a place which, our discussion suggests, hold happiness for you not only during your lifetime, but after your death as well. Let people despise you and abuse you as well, if they like; yes, let them even strike you ignominiously in the face. Why should that worry you? Nothing terrible will happen to you as long as you really are a good and moral person, training yourself in the exercise of virtue. Once we’ve completed our training together in this respect, then, and only then, will we turn to public life, if that seems appropriate, or to contributing ideas of ours to political debates, because by then we’ll have better ideas to contribute than we do at the moment.”
Sócrates

05/05/2009

Diálogos V


O que são projeções?
Se nos determos numa cidade e por momentos fecharmos os olhos, melhor escutaremos; se taparmos os ouvidos, melhor veremos; se nos calarmos percebemos melhor o que nos rodeia; da mesma forma que quando sonhamos, vemos e sentimos coisas que pensamos impossíveis durante o dia. Ora, as projeções são-nos ditadas primariamente pelos sentidos, pois são eles os primeiros recursos que utilizamos para a colheita de informação para posterior projeção. A projeção é, assim, ditada por uma série de supostos erros que vivem logo nos sentidos e que, por variados motivos, sociais, biológicos e até fisiológicos, definem acriticamente uma projeção que tomamos certa para nós, para os outros e para o mundo. Ora, o que acontece é que o processo de projeção é uma prisão mental que, mais uma vez, nos facilita o medo e o perpetua, permitindo a não-vivência do nada e do tudo.

Porque tememos a solidão?
Quando há pouco falei em acendalha referia-me já aquele instrumento material que usaremos como ferramenta, depois de apreendida num certo sistema de ensino. Essa acendalha é o guia abstrato, que nos devem passar quando estamos ainda perto da essência, ou seja, enquanto crianças; dessa forma poderemos aceder à linha sonho que cruza com a linha destino, para que nos encontremos no centro da cruz, sublimando-nos presente. Quando nos sublimamos presente, deixamos de temer a solidão, não porque ela nos deixa sós, mas porque ela nos permite respirar; parece-me que é isto que muitos temem, depois de anos em que aprendemos a contemplar primeiro os outros para nos identificarmos.

01/05/2009

Chegou-me por e-mail este pedido de ajuda do Rio de Janeiro: "Minibiblioteca comunitária, campanha Banco do Brasil agência 3082-1 conta 9.799-3"

O João André tem 85 anos: o mestre da vida


A notícia surpreendeu muitos, até porque num país que definha demograficamente, são precisos mais exemplos destes para o fortalecimento da sociedade baseada no saber-fazer e no fazer-saber. O João André é um daqueles portugueses, que como muitos, não deixaram de lutar para que a reforma não fosse uma etapa da vida ao serviço da morte.

Depois de aprender tudo sobre barcos e de como eles subiam o Tejo até Abrantes e de ter trabalhado na construção civil, João André permaneceu mestre da vida e mostrou-nos como se pode ir aprendendo fazendo e ensinando aprendendo com o desinteresse do amor e da entrega. Pode-se dizer que João André cumpriu-se, não porque concluiu o 12º ano, mas porque soube continuar livre no seu estar e no seu saber, cultivando aquela natureza do português que é a do Espinosa, de limpar lentes e pensar melhor que Descartes, este apenas mestre das estatísticas do programa novas oportunidades.

O João André mostrou que podemos continuar a ser portugueses do infinito, plantados em qualquer parte do globo, vivendo entre a saudade de um Portugal por resgatar e um presente imenso baseado na empírica que só o humanismo traz. O João André mostrou que podemos vencer a morte, vivendo cada dia a experiência de sermos mestres de nós próprios, gratos com o que temos e o que somos.