28/02/2009

Espreitadela no "Não Mudes de Assunto"

http://naomudesdeassunto.blogspot.com/2009/02/lobo-antunes-zangado-com-deus.html

Diálogos II


O que é o tempo? O que é o infinito sublimado em nós?
O tempo é uma brisa fresca de uma noite de Verão. Mas em todos os mundos que construímos, tendemos sempre para o enclausurar (o que muitos apelidam de rotina). Ora, basta que entendamo-lo como uma partícula sem destino, nem balizas, para que possamos aceder a ele como quem aceita o inesperado.

O infinito é esse inesperado e é do caos que a partícula tempo nos trará o universo sem fronteiras, da surpresa e do mistério; não para que possamos resolver ou controlar tudo, mas apenas para aceitarmos a natureza-surpresa do que pulsa em nós.

República Formal


Este fim de semana o Congresso do PS e também estou ausente, não apenas por estar a uns milhares de quilómetros de distância, mas também por ter estado desde sempre desligado deste projeto que de socialista tem muito pouco e que ainda por cima eleva aos píncaros do poder formal as personagens menos capazes. Maravilhoso mundo este que não se permite abrir ao conjunto de todas as consciências e que, por medo do improvável, do infinito, permite a ascenção dos grupos dos "quase capazes", dos que perpetuam uma qualquer caixa de pandora, encerrada numa qualquer cidadela do conhecimento que pensam eles universalizante.

Perpetua-se esta situação dos situacionismos, que acaba por circunscrever o espetro político português a um centro desenhado pelos partidos com modelo e sistemismo novecentista, numa sociedade a caminho da total globalidade. Mas isto não é apenas problema português, pois se sobrevoarmos os cenários políticos europeus podemos ver a multiplicação homogeneizante de um modelo que veio para durar e que já não admite os bons radicais, pois os que restam ou têm de se ausentar ou procuram desculpar-se perante a massa.
Escolhemos o deus-pai, que logo desertifica o cenário político, que o transforma em território multiplicado pelas suas ideias inócuas, areal onde por vezes pululam um ou dois pretensos oásis, que mais não são do que micro-regimes do medo. Procuremos sim esse país que é ao mesmo tempo urbi e orbi.

26/02/2009

Diálogos


Mas como é possível? Como é possível esse mundo?

Pode ser que esse mundo seja inventado, tal como este o fora. E pode ser que este agora não seja o imaginado de quem o construiu. Pode também ser que o mundo que agora imaginamos diferente, seja apenas um outro, com nome diferente do deste, subproduto da imaginação do presente. Basta, então, que ouçamos a pedra falante, para contemplarmos à nossa frente algo que nem sequer imaginamos e, que afinal sempre ali estivera. Pode ser que esse seja o mundo que desejamos.


E como seria ele?

Sê-lo-ia de novo inventado, imaginado, criativo. Tal como todos os outros mundos que já tivemos. Só que este seria o mundo multiplicado por cada homem existente, sublimado na sua essência-natureza, do antes do ser que já era. Seria inventado no momento em que todos nos apercebessemos que em cada um de nós carregamos uma só criatividade e imaginação, que terá de ser catapultada não só por um outro sistema que contemple a excepção, mas também pelo sonho do impossível.


E que sonho do impossível é esse?

O sonho daquelas coisas que hoje nem imaginamos serem possíveis. Do mundo que nem conhecemos e pelo qual não precisaríamos de lutar, pois pulsa já e sempre dentro de nós. Precisamos apenas saber mergulhar dentro desse lago, para emergirmos feito castelo na colina. E uma vez lá, passariamos a não saber em que mundo estaríamos, pois ele se cumpriria sonho de tornar possível o que pensamos hoje impossível.

25/02/2009

"It appears that political and religious leaders keep on approaching today's problems with yesterday's solutions. In truth, today's problem can really be solved only by tomorrow's solution. And to reach tomorrow's solution means that we envisage a brand new tomorrow in which today's problems are essentially absent [...] to approach today's problem with yesterday's solutiuon is to be reactive. It is a sure way to perpuate today's problem. What appears to be today's problem is in truth yesterday's problem in new disguise. This repetitive cycle of problem-solution-problem-solution is a vicous circle in which nothing is really solved or changed."

Yasuhiko Kimura

24/02/2009

"Mas o rei está apenas oculto, na ilha de encantos que é cada um de nós, e espera que a ele nos submetamos para que surja e salve; basta que acorde na alma de um de nós, para que também desperte nas almas que se perdem de tristeza e de dó pelas aldeias da península, pelas savanas de África, pelos palamares da Índia, pelas favelas de Paris ou pelas avenidas da Alemanha. Basta que um se erga; o povo é ele e dele. Forças nenhumas se lhe poderão opor se ele próprio não provovcar a batalha e se toda a sua coragem se concentrar, não em agredir, mas em se afirmar e em ser pacientemente, mas sem concessões, persistentemente, mas sem dureza, todo na tarefa, mas sem interesse seu, o guia que se espera, heróico e lúcido, ousado e calmo, aventureiro e lento. Todos em el-rei, el-rei em todos; e sem rei nenhum, que o não precisamos para nada, pois o rei o somos."
Agostinho da Silva, Quinze Princípios Portugueses

23/02/2009

"What slave in chains is as unfree as a tyrant!"

Kierkegaard

21/02/2009

O Ensino de Fábrica contraria a Natureza Humana e Atrofia a Imaginação e a Criatividade, Enclausurando-as em Caixas e Tornando-as Inacessíveis


A escola de hoje é um modelo que se equilibra por um lado no modelo fábrica e por outro na lógica behavorista pavloviana. Ambos são originários do final do século XIX e impuseram, ao lado da economia de mercado emergente, um modelo de educação que se baseia na massificação do ensino e que pensa as crianças como tabulas rasas. Partindo destes princípios, temos uma educação que admite a massificação das estruturas de ensino e que olha para os gastos do Estado como factor que se deve sobrepôr ao interesse da criança como ser excepcional. A escola surge assim, como embrião da empresa e da nova economia, pensada para nos tornar soldados ao serviço de uma ditadura de mercado ou de um ideal político que se pensa único. Temos sim de impôr uma escola que cultive o amor abstracto pela aprendizagem, que forneça material e guidance para que a criança possa partir para o mundo, na plenitude da sua natureza.


Outra questão que se nos coloca é a da avaliação segundo os gráficos da OCDE ou da burocracia castrante dos ministérios e dos institutos cheios dos tais boys contratados pela máquina partidária e não ao serviço da procura da melhor pólis. Assim, surge a educação based on grades, que divide para reinar e onde se fornece uma leitura errada da educação, com a criança levada a castigar-se a ela própria para estudar num dado período e depois tudo esquecer. E pergunto: onde está o prazer para ir à escola? Para apenas formalmente cumprir um dever que nos possa trazer mais tarde um curso qualquer? Para que nos distanciemos de nós próprios?


A democratização do acesso foi apenas ditado pela economia de mercado e pela lógica taylorista, não para preservar e ajudar a encontrar a natureza de cada um de nós, mas para nos preparar para sermos agentes da indústria de massas, até chegarmos à reforma onde passamos candidamente sem sabermos quem somos, perdidos por sermos soldados sem arma e sem guerra; para sermos eficientes num sistema que procura o lucro, esquecendo-se do Homem, levando à sebentarização das matérias, à simplificação dos temas, à confusão entre currículos, entre o modelo capitalista e o modelo burocrático-soviético, que desumaniza o professor e estabelece fenómenos burocrático-administrativos na escola que impedem a procura da psicologia de cada criança.


Temos de contrariar Thorndike em The Teacher's Word Book, onde este diz que deviamos moldar a criança, passando a estimular a natureza de cada ser humano; mas não o fazem porque perdem tempo discutindo o sexo dos anjos entre mudanças de horários, aulas de substituição, burocratização do ensino, organização administrativa e avaliação; continuamos perdidos nas lutas PRECianas entre revolucionários e pós-revolucionários, entre os que se converteram, os que estão por converter e os que nunca se converterão; entre uma ministra ex-anarco-sindicalista que não perdeu os tiques estalinistas e os sindicatos que não abrem o debate para uma profunda e densa reforma.

Acabemos com o ensino retirado do contexto, onde falta a poesia da vida vivida.


P.S. em homenagem ao Carlos Carranca.

18/02/2009

"My Whole Life is an Epigram Calculated to Make People Aware."

Kierkegaard

17/02/2009

Cadernos de Bruxelas VI - Da Legitimidade


Quando escutamos um dos líderes europeus, que nem há poucos anos escapou de Portugal em plena crise económica, despoletando uma outra de natureza política, ficamos com a impressão que a actual crise não é nem financeira, nem económica, mas sim de consciência colectiva, aquela que nos pode salvar e mantermo-nos no rumo da ética e da justiça. Pois ele falou, depois de estudar muito bem os dossiers da enciclopédia de bolso da economia política, de uma tal crise financeira, de desemprego, de coordenação de sistemas de segurança social, esquecendo-se que a ele próprio não lhe é reconhecida legitimidade nas matérias. E falo da legitimidade weberiana, pois na senda do mesmo autor, reconheço que carisma não é elemento não só da psicologia deste personagem, como do seu papel político.


Depois disso o parlamento checo ofereceu uma cópia de um quadro de Danielem Adamen de Veleslavína intitulado Mapa Evropy v podobe zeny (Mapa Europeu em forma de mulher). Nos discursos de corta-fita do costume esqueceram-se de mencionar que o mesmo mapa data de 1592 onde temos a coroa unida de Portugal e Espanha sob Felipe II, que não temos Inglaterra como segundo braço da cabeça da Europa (retirada da continentalidade pela inimizade castelhana), agora desfigurada pela coroa fechada do império do mundo entre uma Itália terminando em poder espiritual e o Reino da Dinamarca segurando o ceptro em sinal de poder temporal; ao se esquecerem disto, falaram em Europa dos valores, da busca pela paz. Apenas consegui ver a Europa dos mitos, que começam nos gregos, depois unidos em Roma, passando pela Monarquia Universal de Dante e terminando nesta amálgama pós-cataclismo mundial que se pensa a si própria pós-modernista e tecnocrática. Este foi o quadro que vi, contrário àquele do Pessoa em Mensagem, onde entre a cabeça do quinto império anti-império, estariam os braços da Itália como conjunto espiritual da união de Roma com Constantinopla e o da Inglaterra como alavanca do progresso científico. E esse, seria o do amor e da felicidade.

15/02/2009

Cadernos de Bruxelas V - O Medo


Apesar de não estar na minha terra matricial continuo acompanhando o que por lá se passa, pois por cá ainda consigo visitar alguns jornais portugueses que preenchem umas quantas prateleiras na biblioteca do parlamento. E nenhuma notícia me tem surpreendido; do Freeport, passando pelas últimas sobre Dias Loureiro e acabando no medo edipiano que se vive dentro do PS. Nada me supreende pois quanto ao freeport, apenas tenho a dizer que é mais um exemplo do endémico entendimento que temos sobre as fronteiras do público, do privado/familiar, pois se ainda não saímos de casa, também não deixámos de ser comunitaristas - pena que apenas o pratiquemos no pior dos sentidos.


Mesmo assim a nossa máfia não é tão evidente como aquela que encontramos em outros Estados, também eles europeus ou prestes a entrar nessa liga, pois a cosmologia conceitual europeia prefere não incluir certos fenómenos; pois ainda bem que não o faça já que não temos nem Sicília ou Nápoles e os nossos Dias Loureiro são apenas meninos de coro que aprenderam que o enrichez-vous é produto de uma pilotagem situacionista, no manter o leme na mesma rota, mesmo quando os ventos nos puxam no sentido contrário.


Quanto ao medo dentro do PS já tenho afirmado aqui alguns exemplos, basta procurar no arquivo; até porque cheguei a testemunhá-lo, não a senti-lo, pois não chego sequer a ser como um dos tantos Filhos desse Pai-Deus, que um dia cairá, substituído por um dos primeiros, mas que se manterá Pai para que nada mude. Sou agente da liberdade, aquela que se encontra para além da ordem, não como anarquia como alguns entenderam ou entendem, mas como a última liberdade do Homem que nos permita sublimar por dentro, como num dia destes afirmei; por isso não rejubilo com os noventa e tal por cento, pois os regimes formais acabam perdendo-se, pois neles não habita liberdade de afirmar, de contradizer para evoluir.

07/02/2009

Era do Neo-Realismo: Biden Falou no Encontro de Munique - Considerandos sobre a Política Externa Norte-Americana


O novíssimo vice dos EUA não trouxe, afinal, novíssimas parangonas pois acabou apenas por conceptualizar o discurso abstracto de Obama na tomada de posse. Ouvi armas de destruição massiça, terrorismo, fundamentalismo, tolerância e Irão.


Recomeçou a nova administração que, no plano da política externa, muito se assemelha ao discurso trumanesco, incluindo a transatlantidade, a tolerância invés da aceitação, com um palavreado pautado de certa poesia, mas que no seio mantém os valores que ligam os EUA à imagética do império, agora aos pedaços e, esquecendo que a soma das partes não equivale ao todo. Os EUA que falaram em Munique, são o Estado que busca continuar a ser o monopólio criador e reciclador dos conceitos de segurança e defesa.


Saímos do neo-conservadorismo para entrarmos na era neo-realista, onde o que sempre parece discurso novo é discurso renovado. Pelo menos eles reconhecem que para continuar a única superpotência do agora e do horizonte, têm de passar a cooperar, pois vistas as coisas apenas Guantanamo em um ano é pouca coisa. O Iraque e o Afeganistão estão muito longe do Estado de Direito e a França continuará a liderar o processo de integração europeu nos sectores de segurança e defesa, desviando-o, por vezes, do transatlantismo.

06/02/2009

Poema por Cumprir

Estou ledo de palavras,
Vestígios de luares,
Poemas incompletos,
Poetas furtivos,
Que jazem no banco do jardim.

Pautas, trovadores,
Cantantes sem voz,
Mulheres nuas imaginadas,
Vestidas de Inverno,
Esperam ainda no canto escuro,
Da sala onde te contemplei.

E somos sempre esse poema inacabado,
Do cá e do lá,
Do constante, do inconstante,
Nessa inconstância de ser constante,
Onde esvoaçam pétalas,
Que nunca habitam chão.
6 Dezembro 2008

04/02/2009

"Os filósofos antigos chamaram ao homem mundo pequeno; porém S. Gregório Nazianzeno, melhor filósofo que todos eles e por excelência o teólogo, disse que o mundo comparado com o homem é o pequeno e o homem em comparação do mundo, o mundo grande; mas um é um mundo e são muitos mundos grandes que estão dentro do pequeno. Basta por prova o coração humano, que excede na capacidade toda a grandeza e redondeza do mundo (...) o homem, monstro e quimera de todos os elementos, em nenhum lugar pára, com nenhuma fortuna se contenta, nenhuma ambição, nem apetite o farta; tudo perturba, tudo perverte, tudo excede, tudo confunde, e como é maior que o mundo não cabe nele."

Padre António Vieira

03/02/2009

Sinto um tremendo temor da morte. Não da minha, mas dos outros; perguntando-me porque razão não posso escutar as músicas que o Tom Jobim teria ainda guardadas, ou ler o que Pessoa estaria, na sua essência, destinado a escrever pela eternidade.
E pressinto essa saudade de um futuro, que não fosse mais impossível; onde pudessemos ouvir um para sempre Tom Jobim; ler um para sempre Pessoa; onde nos reinventássemos e nos criassemos no nada, para sermos realmente tudo.

02/02/2009

Pelo amor de Deus,
Não vê que isso é pecado,
Desprezar quem lhe quer bem,
Não vê que Deus até fica zangado,
Vendo alguém,
Abandonado pelo amor de Deus.
Ao Nosso Senhor,
Pergunte se,
Ele produziu nas trevas o esplendor,
Se tudo foi criado - o macho, a fêmea, o bicho, a flor,
Criado pra adorar o Criador,
E se o Criador,
Inventou a criatura por favor,
Se do barro fez alguém com tanto amor,
Para amar Nosso Senhor.
Não, Nosso Senhor,
Não há de ter lançado em movimento terra e céu,
Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel,
Pra circular em torno ao Criador,
Ou será que o Deus,
Que criou nosso desejo é tão cruel,
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel,
E esses vales são de Deus.
Pelo amor de Deus,
Não vê que isso é pecado,
Desprezar quem lhe quer bem,
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém,
Abandonado pelo amor de Deus.
Chico Buarque

01/02/2009

"É mui necessário, para que possas fazer a felicidade do Brasil, tua pátria de nascimento e minha de adoção, que tu te faças digno da nação sobre que imperas, pelos teus conhecimentos, maneiras etc., pois, meu adorado filho, o tempo em que se respeitavam os príncipes por serem príncipes unicamente acabou-se; no século em que estamos, em que os povos se acham assaz instruídos de seus direitos, é mister que os príncipes igualmente o estejam e conheçam que são homens, e não divindades."
Carta de D. Pedro I a seu filho, Pedro.