30/01/2009

Jesus

Pela noite clara,
Os abutres se apoderaram do castelo,
E foi fome o que trouxeram.
Entre os pilares,
A rosa escarlate no coração dos homens.

Buscaram sobreviver,
Ganhando coragem no acto necrófago,
No meio dos dejectos que plantavam.
- Únicas sementes na terra queimada.

Esperaram,
Ansiaram,
Pelo anjo que lhes trouxesse,
Imagem de santa,
Altar em Igreja protegida,
Mas era tanta a fome
Que apenas um restou.

Aí se sublimou Deus,
E passou uma semana,
Passaram mais uns dias,
Até se decidir comer seus dedos,
Sofreu.

Refastelou-se dele próprio,
Dedo a dedo,
Membro a membro,
Órgão a órgão,
Deixou carne,
Virou divino.

22/01/2009

Tempo


Ó tempo, quanto tempo me roubaste,
E do quanto me fizeste ansiar,
Pela busca do tempo,
Que um dia sentira perdido.
Ó tempo, agora relógio,
Que pela saturnina menção,
Me fizeste ser o tempo,
Perdendo tempo do tempo que sou.

Ó tempo que pelos corpos clamas,
Cidades, Estados, corações, almas,
E me fazes suplicar,
Em honrosas túlipas-minutos,
A espera do que há em mim.


Janeiro 2009

20/01/2009

Cadernos de Bruxelas IV


No actual momento em que é preciso um discurso de liderança, Obama toma posse e acaba por encerrar um ciclo não só na política nacional norte-americana, mas também no ambiente internacional. Obama será o primeiro a atender aos apelos multilateralistas, consequência desta nova teia multipolar. E terá de mostrar essa nova faceta, não como fiel mas como um dos pratos da balança, com o mesmo peso que os restantes participantes. E assim deve ser, numa procura continuada para a democratização das teias internacionalistas.

Terá de o fazer já na busca de uma solução a longo termo para o Médio Oriente, talvez buscando em Ahmadinejad não um interlocutor mas um peso importante na manutenção do equilíbrio regional; planear a retirada faseada do Afeganistão; e terá de endereçar de igual para igual uma proposta de renovação do sistema Bretton Woods já na próxima reunião dos G20.

"Ver a História acontecer" é o que muitos sentem num cerimonial tradicionalista, ampliado no nosso tempo pelas tecnologias de informação; talvez nunca um Presidente norte-americano nos tenha feito sentir cidadãos do mundo, apelando ao âmago da natureza humana na sua busca pela liberdade, na prossecução de um bem comum, na construção de algo que cada vez se assemelhe mais a nós mesmos, onde escutei "criatividade", "liberdade", "felicidade". Talvez por isso Pierre Hassner afirmou que este é o momento ideal para a "união entre todos os homens e mulheres de boa vontade".

E ele também nos ensinou que a História é feita por nós e para nós, fora dos mediáticos évènements do show-off que ficam marcados numa cronologia de tradução simplória. Basta agora que o público europeu não se iluda a si mesmo, esperançado de líderes e de ideias fervilhantes; é que temos a tendência de traduzir mal o que vem de Washington, muito mais quando pensamos estarem a apelar ao coração das nossas ideias. Acreditemos, pois por cá falta Obama e os supostos substitutos não são bons.

Por aí Manuel Alegre foi apoiar a fundação de um partido, originário de um grupo de dissidentes do PS francês, depois de sabermos que ele pode ser o suposto futuro candidato do PS às presidenciais ou até ficar com o lugar do Jaime lá na AR (o que não acredito que vá querer); Pedro Passos Coelho com a história do TGV mostrou ser menos liberal do que pensávamos e até chegou a tirar do centro Manuela Ferreira Leite, continuando a sempeterna candidatura, mas anunciando que dentro do partido continuam as querelas ao centro, pois eles não sabem fazer oposição face a um PS que vai comendo o eleitorado silencioso do centro direita; e de novo Ferreira Leite terá de continuar a negociar internamente a sua candidatura a primeiríssima, especialmente para os lados da Sé de Braga, com o "cardeal" Virgílio Costa.

Sócrates lá anunciou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a regionalização e a escolaridade obrigatória aos doze anos pois agora já está em campanha. Com um discurso polvilhado de rebuçados ideológicos comprados no supermercado, mostrou que não será ele a tirar o socialismo da gaveta; até porque Merckel reforçou a sua liderança, inclusive face ao SPD que mostrara reticências ao projecto de recuperação económica da CDU, apresentado e discutido na reunião da coligação; e Zapatero assume uma postura presidencialista, ao tornar-se o verdadeiro timoneiro não apenas do governo mas também ao homogeneizar o discurso dentro do PSOE, mesmo entre Barreda, Vara e Chaves que nacionalmente são vozes do coro do primeiro-ministro. Sendo assim lá continuará o arranjo ao centro da social-democracia europeia, pela manutenção das coisas do ontem no depois.


Dossier importante: por cá vão dar o nome de Francisco Lucas Pires a uma das salas da biblioteca do Parlamento.

18/01/2009

Tudo que é Nada

Quando ela pegou na bruma,
A invernosa mão,
Com o peso da pluma,
Revestiu-se de luva.
Carinhosamente viajámos,
O comboio de uma carruagem,
A viagem,
Que silenciosamente preparámos.
Eram quatro da manhã,
Neste tempo louco,
Na perdição de um beijo,
Onde todas as noites,
Ansiava encontrar-te por entre lençóis.
E fomos tudo,
Pelo nada de sermos tudo,
Para voltarmos a querer ser ainda mais.
Outubro 2008

16/01/2009

Livro de João

"Perguntou-lhe [a Jesus] Nicodemos: Como pode um Homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez? Respondeu Jesus: em verdade, em verdade te digo: quem não não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo. O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai; assim é tudo o que é nascido do Espírito." (João 3:8)
Renasce Espírito nesta vida, para que te cumpras vento e sigas suas coordenadas; deixa-te guiar por ele, sem ter medo de saber onde chegas.

Alain, Éléments de Philosophie, 1940

"L'idée naïve de chacun, c'est qu'un paysage se présente a nous comme un objet auquel nous ne pouvons rien changer, et que nous n'avons qu'á en recevoir l'empreinte. Ce sont les fous seulement, selon l'opinion commune, qui verront dans cet univers étalé des objets qui n'y sont point; et ceux qui, par jeu, voudraient mêler leurs imagination aux choses sont des artistes en paroles surtout, et qui ne trompent personne [...] Si la vue este gênée par le brouillard, ou s'il fait nuit, et s'il se présente quelque forme mal désinée qui ressemble un peu á un chéval, ne jurerait-on pas quelquefois qu'on l'a réellement vu, alors qu'il n'en est rien? Ici, une anticipation, vraie ou fausse, peut bien prendre l'apparence d'un objet [...] On soutient communément que c'est le toucher qui nous instruit, et par constatation pure et simple, sans aucune interprétation. Mais il´n'en est rien. Je ne touche pas de ce dé cubique. Non. Je touche successivement des arêtes, des pointes, des plans durs et lisses, et réunissant toutes ces apparences en un seul objet, je juge que cet objet est cubique [...] Mais pourtant c'st un cube que je vois, à faces égales, et toutes également blaches. Et je vois cette chose même que je touche. Platon, dans son Thééthète, demandait par quel sens je connais l'union des perceptions des différents sens en un seul objet."

15/01/2009

Voo de Pássaro

Do alto via a sociedade,
Não eram teias nem soldadinhos de chumbo,
Formigas assomando a portas,
Vidas entre paredes.

Na janela as mãos acenam,
Tão pequenas,
Instantâneas,
Gotas, carros, veículos sem fim.

A beleza é insignificante,
A areia e a água em linha ténue,
O sol dos gigantes,
A sombra dos anões.
E eu era pássaro,
Louco,
Num sonho de criança.


Setembro 2008

Uno

A casa vazia. Eu e umas quantas paredes. Elas me observam. A tua voz soa na minha cabeça e corro pela casa à tua procura. És um mito. Sento-me na cama e olho para os lençóis desarrumados. Era ali que nos deitávamos e desde então que os lençóis não tinham sido tocados. Passei a dormir no sofá para te perpetuar e as noites são longas de sonhos. Busco teu cheiro no lençol, mas é em vão: o tempo apagara a tua essência. As minhas mãos tentam delinear o teu corpo no ar; os dedos por pouco te tocam. Mas tudo é espera; e a espera chama-se Perpétua. Tudo é silêncio e tu dentro de mim.
"A casa vazia."
Setembro 2008
"Não há maior Poder no Mundo que o do Tempo: tudo Sujeita, tudo Muda, tudo Acaba."

Padre António Vieira

14/01/2009

Cadernos de Bruxelas IV - Enfrentar a Crise; Usar de Mecanismos do Passado para Efeitos Económicos do Presente?

A atual crise financeira tem sido muitas vezes comparada ao colpaso de 29. Esta foi uma crise onde os sistemas financeiros não tinham sequer atingido a enormidade, e muitos menos estavam ladeados por esta filosofia de mercado e por um sistema que se baseia numa teia relacional medida ao segundo; por isso muitos falam em economia de casino; eu prefiro invocar a metáfora informática para descrever o sistema que não passa de uma rede de outras redes, onde pensamos ser nosso o dinheiro que vem descrito como montante de uma conta bancária que vagueia no espaço etéreo. Esse dinheiro volátil está a ser utilizado para investimentos na roleta russa, onde acabam por afundar as nossas poupanças de anos e anos, pois fomos deixando de acreditar no Estado, que nao mais será de providência, e depois porque nos fizeram escravos de um qualquer trabalho.
Quem por múltiplas razõess acabou por se guiar pela sereia do crédito, terá agora menor ou nenhuma capacidade de enfrentar a economia real, surgindo uma nova classe de pobres há espera de um label sociológico afrancesado.
O paradigma esgotou-se a si mesmo; precisamos de uma virada e não de remendos baseados em soluções do passado, para mantermos uma série de direitos que fomos conquistando. Parafraseando um antigo eurodeputado português, devemos humanizar a economia e não deixar que seja ela a comandar a nossa natureza. Este é o momento.

11/01/2009

Tua Lua

Lua,
Essa noite tua,
E do quanto és minha,
Sem te carregar,
Em mesu prantos.
Quanto desse olhar,
Não é teu luar?
Lua,
Essa noite tua,
Minha noite escura,
No amarelo da cidade,
Na sombra,
De me quereres,
Sol.
Lua,
Essa noite é tua,
O teu nome,
Lua,
No céu.
Janeiro 2009

08/01/2009

Água

Ai, quanta vela,
Tanto barco,
No porto expectante,
E toda aquela água por correr,
Todo mundo,
Num pedaço de madeira,
Flutuante.

Ai, quanta nudez,
De tecidos transparentes,
No porto expectante,
E todo aquele corpo por correr,
Todo planeta,
Pedaço de memórias,
Música.

Ai, quanto de nós,
Guardado,
Sagrado,
Em malas de viagem,
Do quanto nós, beijo,
E da água nos corpos,
Em cascatas,
De gelo.
Novembro 2008

IX, Número 9

É a nona vez que te escrevo,
Sussurrava.
A viagem longa do selo,
A viagem longa da saliva.
De soslaio reparou no céu escuro,
A primavera dos tempos sombrios.
E o selo repimpão, pam-pum,
Entre batidas de carimbos brancos,
Senhoras requintadas de saiote,
O suor dos carteiros,
Lambretas sem óleo.
A nona! Acredita!

Rua acima, rua abaixo,
Curva e contra curva,
Em respiração orgásmica,
- O raio do carteiro nem vê-lo.
- Costuma passar ao meio-dia menos coisa.
Pedal,
Em força antes do meio-dia menos coisa.
O carteiro nada,
Exasperação.
Cruzamento.
O silêncio a espreitar o fim da rua,
Sem novidades.
Um carro esconde outro carro.
Todos à janela,
Ansiedade, dedos sem unha.
A lambreta e o carteiro,
Num voo fonético pam-pum-pum-pam.
É hora de fazer o almoço,
Amanhã é outro dia.
Agosto 2008

07/01/2009

Quanto Tempo?

Não sei por quanto tempo,
O tempo durará,
Nas pálpebras do cansaço,
Na ponta da caneta flamejante,
Ou será o movimento parado dos pés.
- Tímidos para que ninguém acorde.
Insuficiente período mensurável,
Pelo tempo que dura o tempo.
E quanto tempo dura o grito,
Aquele que escuto.
- Tímido para que ninguém acorde.
Janeiro 2009

06/01/2009

Avião

O avião avistado da janela; qual ponto de luz minúsculo com o mundo lá dentro: o mundo das pessoas que nele cabem. Ele rasgou céu e passou apareceu-desapareceu entre os prédios, vagaroso; mantive-me expectante com as mãos apertando parapeito de pedra. Esse avião se chamava "saudade" da saudosa companhia mistério; emproado nome nas asas e no corpo. Lá dentro quer-me parecer que te vi, que me sentei ao teu lado e que pela noite escrevi capítulos de um livro pelas páginas brancas das tuas coxas, costas, da tua cara...uma estória sem ponto final, toda reticências, que é como quem diz intermitências de um estado atávico, deslumbrado pelo dicionário que me ofereceras. Voltei à janela e já o avião se evaporara.

05/01/2009

Cadernos de Bruxelas III

A coligação de Angela Merkel reuniu-se hoje para estabelecer mais medidas de estímulo fiscal, especialmente para o tecido industrial que exporta para quem agora não vai comprar porque entrámos em Keynes; e na senda Merkel também aposta nos investimentos em novas estruturas públicas como estradas e escolas. Voltámos ao New Deal, até porque por Lisboa Nobre Gudes já pedia a Portas que fizesse um arranjo pré ou pós-eleitoral, Atta Mills mostrou que o Gana escolheu o centro esquerda e a Gazprom continua a ameaçar a sociedade do welfare europeu; ora vejamos os números do consumo do gás na Europa, dependente dos russos:
Ucrânia - 59,2%
Alemanha - 34,5%
Turquia - 23,4%
Itália - 22%
Bielorússia - 20,6%
Grã-Bretanha - 15,2%
França - 10,1%
Casaquistão - 10%
Hungria - 7,5%
Rep. Checa - 7,2%
Polónia - 7%
(Fonte: Wall Street Jornal de 5 de Janeiro)
Enquanto isso Ahmadinejad ganha com a estratégia da futura primeira-ministra israelita, pois surge agora como o único líder capaz de congregar os árabes na sempre conversa anti-sionista, dos maus e dos bons, esquecendo a verdadeira natureza e sabedoria árabe, que nos trouxe o sentido matemático-filosófico do zero, que há uns séculos nos permitiu viajar pelo mundo e que nos dois últimos séculos nos tem dito que o sentido de Comunidade ultrapassa o de Estado.

03/01/2009

Cadernos de Bruxelas II - Keynes Voltou Para as Novas Cartilhas e Afiguram-se Governos de União na Social-Democracia


Depois que o projecto foi posto de parte pelos ideólogos americanos da livre-circulação e da abertura continuada do mercado, eis que John Maynard Keynes surge como "a personalidade" de 2009. Com os olhos virados para as últimas novidades estratégicas da próxima primeira-ministra israelita, e com a esperança que os piores cenários dos economistas não se cumpram, continuamos sem saber o que se vai realmente passar.


Este globo, num cada vez mais agitado movimento de centrifugação sem remote control que vai marginalizando os pobres materiais mas que traz ao centro os pobres de espírito, afasta-se aos poucos do projecto comunitarista e observam-se acções de carácter imperialista sustentados por projectos nacionais. Contrariam-se as previsões dos pós-modernistas, o paradigma em si está ultrapassado; Wilhelm Röpke nunca esteve tão longe.


Dentro das fronteiras preparam-se projectos de aliança; desenham-se executivos que tentam procurar a maior legitimidade possível e que congreguem esforços, num maior protecionismo económico, na procura de mais Estado, onde ele tem deixado de existir. Em Espanha Zapatero e Rajoy talvez terão de se aliar ao centro, apesar da subida do ordenado mínimo; em Portugal um arranjo pós-eleitoral com o queijo limiano ou com a mãe da família Adams são duas de uma opção, tal como a dissolução do legislativo ou um governo-emergência.


Enquanto a Rússia apenas quer acertar a factura de Kiev, talvez possamos prever um cenário futuro em que, depois de ameaçada a UE em sucessivas reuniões (a Rússia já pediu uma), também se torne impossível aos europeus pagar a factura do gás. E dentro deste cenário, os povos civilizados do ocidente sairão à rua, numa revolta contra as expectativas; não é por acaso que os árabes que vivem em Bruxelas escolheram hoje a escadaria da Bolsa na Saint-Catherinee para protestar contra a ofensiva israelita.


Por outro lado continuo a acreditar que este é apenas um período transitório para que possamos depois ser realmente felizes, num movimento centrípeto que nos traga perante nós mesmos, sem medo do que possamos encontrar; a caminho da criança que somos.

02/01/2009

Cadernos de Bruxelas I - Um País Inventado: As Duas Línguas e a Banda Desenhada


Com os pés num dos Estados inventados da Europa central, vivo a experiência da descoberta, num continuado aprendizado, no para sempre aluno. O país da banda desenhada, acolhe outras fantasias e máquinas fazedoras de outros mundos e das utopias do final das fronteiras.


Não é estranho que neste mesmo Estado de duas nações, esteja implantado o coração e o cérebro das instituições europeias; coração pois são elas o único garante desta continuada estadualidade belga, cérebro pois aqui é a sede da burocracia e do governare europeus.


É por isso que ao rodear o edifício da comissão, assusto-me com o tamanho que a burocracia tem de ocupar para preencher o espaço deixado pelas infidelidades nacionais.

01/01/2009

Tensão Institucional Governo-PR ou a Psicologia com Conceitos Sistémicos e Ainda o Fenómeno Armando Ramalho "Odivelas"

Este é o primeiro post já por terras belgas, a partir do Caravelle onde estarei nos próximos três meses. Mas não queria deixar de assinalar uma das parangonas do DN de ontem que dava conta da tensão institucional que poderia provocar o rompimento do actual quadro legislativo. A dita tensão entre órgãos não serviu para mascarar a crise económica com uma outra política, como alguns tentaram fazer crer; vistas as coisas a crise da economia real, que ainda não assolou Portugal, não se sente na pele e parece que nos mantemos numa redoma psicológica, esperando que os economistas se tenham enganado nas suas previsões; não me parece que precisemos de outra máscara, se já temos esta!
Quanto à birra do PR, apenas tenho a dizer que o mal-humor tem desses dias, mesmo quando o governo e o partido maioritário se encontram na mesma linha a-ideológica, num encosto mútuo ao centrão dos silenciosos. Depois não entendo esta neurótica interpretação de autonomia regional; melhor dizendo, até entendo pois percebo que ela advém da amálgama de conceitos da geopolítica barata, incorporada pelos assessores e tecnocratas para estadista entender; posso não aceitar e não aceito, aliás defendo uma ainda maior autonomia, para que se cumpra melhor a fraternidade do espaço.
Depois o anúncio ou a ameaça de dissoulação da AR, até calha bem ao PS, pois não sejamos ingénuos: mesmo numa situação dessas, o PS estaria agora em melhores condições que no final do ano, quando nenhum messias, mesmo que pintado de ouro, conseguirá abarcar a maioria absoluta, para que não tenha de firmar acordos na sequela Limiano. Portanto, até Cavaco poderia dar um contributo ao partido, não ao seu de origem, mas ao do Sócrates.
Mas ele será manso...continuará com a sua máscara, presidindo ao órgão híbrido-misterioso-constitucional, em estreita cooperação institucional com os rapazes porreiros do outro órgão ainda mais híbrido.
No interior do PS, alguns fenómenos para-alegristas ou pós-alegristas ou não agradados com a máquina socratista pós-guterres, surge condensada no nome de Armando Ramalho da Odivelas Section (ou assim esperam alguns oposicionistas). Com os seus 20% na Lisbon Federation talvez faça mossa no meio do aparelho, apenas com consequência no PS version 2.013. Mesmo assim, o Odivelas Phenomena, é outro dissidente desse amontoado de sacristias e paróquias que se zangam com o bispado, ou que ainda lutam entre si, do mapa político-partidário nacional.