28/12/2008

Memória Descartável

Um grupo de cientistas liderados por Elvira Fortunato, estão na vanguarda da descoberta na nova tecnologia invisível, que se espera vir revolucionar o mercado das tecnologias. Um dos projectos ligados a esta equipa, possibilitou a criação do primeiro transistor de papel; a ele está ligado o concept de memória descartável. Este conceito é extremamente interessante; possamos um dia criar um sistema de memórias descartáveis autónomas, ou seja, capazes de se auto-destruir em processo não de reciclagem, ou seja, não físico-material, mas espiritual-conteúdo, levantaríamos a questão do total niilismo social; provocando no clímax a repetição sem noção de repetição; a violência sem noção de violência igual no passado, o amor sem noção de outro igual no passado.

25/12/2008

Teresinha

O primeiro me chegou como quem vem do florista,
Trouxe um bicho de pelúcia, trouxe um broche de ametista,
Me contou suas viagens e as vantagens que ele tinha,
Me mostrou o seu relógio, me chamava de rainha,
Me encontrou tão desarmada que tocou meu coração,
Mas não me negava nada, e assustada, eu disse não.

O segundo me chegou como quem chega do bar,
Trouxe um litro de aguardente tão amarga de tragar,
Indagou o meu passado e cheirou minha comida,
Vasculhou minha gaveta me chamava de perdida,
Me encontrou tão desarmada que arranhou meu coração,
Mas não me entregava nada, e assustada, eu disse não.

O terceiro me chegou como quem chega do nada,
Ele não me trouxe nada também nada perguntou,
Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer,
Se deitou na minha cama e me chama de mulher,
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não,
Se instalou feito um posseiro dentro do meu coração.

Chico Buarque

22/12/2008

Cimeira UE-Brasil


Continuo a elogiar Sarkozy. Gosto do estilo, gosto da loucura e desta vez apreciei o que disse acerca da inclusão do Brasil no Conselho de Segurança da ONU. Não particularmente por causa do tema, mas pela coragem em falar, e passo a citar, "como Presidente da França". Uma vez mais ele dá uma no cravo e outra na ferradura, pois se começou a presidência da UE apelando à convergência da voz europeia, por outro apresenta a sua solução, a solução da França para a inclusão formal do Brasil no grupo dos países-diretório, esperando que essa seja a adoptada pelos restantes.


Sarkozy é um louco a tomar em conta, pois dos loucos rezará a história e não de líderes formais de uma cadeia de interesses e burocracia ao nível da quarta/quinta escolha. Lula sorriu, Durão também, mas de certeza por razões diferentes.

21/12/2008

Da Tentativa de Re-Escrever a História ou de Como se Utilizam Subterfúgios Comparativistas para Tentar Descrever o que Queremos Ver e Não o que Vemos

Ainda no outro dia vi e ouvi Manuel Alegre no programa da Judite de Sousa; para os neo-maquiavélicos do costume ele falou simplesmente dos arranjos eleitoralistas e da génese de um novo movimento político. Para mim, e chamem-me de romântico, ele fala de um passado que nunca existiu, e é por isso que clama por um futuro desse meta-tempo humano; olho-o como o poeta que se sublima poema, pois continuo a acreditar que a política é esse meandro de relações humanas e não apenas uma teia de mecanismos sistémicos e jurídicos.
Quanto aos confrontos na Grécia, continuo analisando (na tradição do gerúndio que nos permite nunca deixar por acabado o nosso trabalho de perguntas constantes). Acredito que o sistema de direitos, alicerçado num regime de liberdades que apontam para o progresso das sociedades e do Homem, é constantemente ameaçado pela economia que a serve; continuamos num círculo vicioso entre liberalismo e cartilhas voláteis do sistema financeiro, que sustentam uma sociedade globalizada e que nos traz uma artificial visão de liberdade.
Quando esse sistema financeiro é abalado, toda a ordem de consumo e artificialidade é automaticamente posta em causa; ora é ai que surge o homem revoltado, adormecido até então por essa mesma estrutura; os ímpetos de revolta são direcionados para outros alvos. Surgem, então, outros mecanismos de artificialidade, voltamos a estar longe do Homem.
A crise na economia real que se avizinha trará efeitos individualizados de revolta, consequência dos mitos trazidos pelas musas da economia pós-guerra; revolta essa que será subaproveitada pelos movimentos políticos da oposição na Europa, mas que serão autênticos bombons para a legitimidade no uso da autoridade por parte dos governos (vejam as sondagens da Nova Democracia na Grécia ou os resultados de De Gaulle pós-5/1968).
Será o indivíduo na rua e não o partido político ou o sindicato Zeca Afonso, para que a economia e a política se humanizem; que sejam o reflexo na lagoa da natureza humana!

Ânsia-Ímpeto

Na ânsia de te ver,
Vendi meu corpo,
Enroscando a perna,
Por outras pernas,
Imaginando que ali estivesses,
- Nua.

Mas o reflexo do lago,
Exibia corpo sem rosto,
O pescoço culminando planície,
Os seios exuberantes,
De uma sereia dos céus.

Na ânsia de te ver,
Escrevera um caderno de poemas,
De mil folhas em branco,
- Paginadas.
Secas em ardor,
E tentei desenhar teus olhos,
Num ímpeto de verso,
Saindo apenas boca,
Cabelos.

Na ânsia de te ver,
Te abracei todo braços meus,
E me deixei adormecer.

Dezembro 2008

20/12/2008

Partita

A minha viagem para terras do centro europeu (diga-se geográfico) começou. Parto com a chegada do novo ano. De lá espero continuar a emitir as minhas singelas opiniões.

14/12/2008

Planície

No tempo do cansaço,
Te coroei rainha,
Das planícies que em mim habitam,
E logo as percorreste cavalo.

Selvagem,
Água, lagoas,
Levas o vento no cabelo,
(Crina),
E repousas sobre mim,
Tapete,
Chão,
Poltrona.
Dezembro 2008

13/12/2008

Do Parlamentarismo

Escutei o soundbyte de Almeida Santos quanto às faltas dos deputados à sexta-feira. Em relação aos salários acho que tem razão, pois a democracia é o regime mais caro e para mantê-lo é preciso investir bem, não só num bom serviço público como na melhor representatividade possível; só não acredito que Almeida Santos tenha a mesma opinião que eu quanto às ditas faltas e às votações à sexta-feira pela matina.
As votações são agendadas e devem ser respeitadas, mesmo que o senhor deputado tenha de ir defender um cliente em tribunal; mesmo que esse cliente seja um qualquer barão dos novos tempos que tenha ido a uma reunião de comissão como orador dos seus interesses ou de uma corporação de que faz parte. E voltamos de novo ao salário dos senhores, pois não me importava que fossem bem pagos para exercer unicamente o cargo para que foram eleitos.
Outro problema prende-se com a partidocracia, pois a maioria continua presa à máquina partidária, ao "servir o partido" e as parangonas eleitoralistas, servindo-se a eles mesmos e não a um ideal, por muito que os estatutos partidários assim o digam. Pois depois não entendem fenómenos como Manuel Alegre que apelidam de "louco", "desleal" e "hipócrita". Atenção, acredito que se deva servir o ideal através do partido, mas não só por essa via; cegueira pela máquina e pelos fenómenos unicamente eleitoralistas é que não!
Para a mudança do sistema português deveríamos ir a fundo, continuando as propostas que fez o Prof. Jorge Miranda em 2002 para a revisão do sistema parlamentar e dos partidos:
a) diminuição do plenário a um máximo de 60 deputados, com gabinetes próprios acompanhados dos melhores técnicos (militantes, não-militantes e apolitizados), políticos e homens de experiência universitária e de vida;
b) institucionalizar de uma vez por todas o lobby, para acabar com a sociedade corporativa e estabelecer regras para a influência política, que desta forma poderia ser feita junto dos deputados, fiéis representantes dos interesses do jogo político nacional, incentivando a criação de bolsas de resistência/apoio para o estabelecimento de uma sociedade civil;
c) acabar com as listas de nomeação partidária, para que saiamos deste modelo de partidos do século XIX, criando-se círculos de nomeação;
d) repensar os inquéritos parlamentares, elevando-os a verdadeiros centros de apuração da verdade, com aprofundamento das suas técnicas e ferramentas;
e) criar um instituto superior de ensino das ciências políticas e do Direito Público e do Legislativo para formação continuada de deputados, técnicos, docentes e cidadãos em geral, com orçamento autónomo e com acervo científico que se possa exportar para os países lusófonos.
Tenho dito.
No fim, valerá a pena espreitar a crónica de António Lobo Antunes na Visão, para que busquemos o espírito:

12/12/2008

Discurso Porreiro

Assisti ontem ao discurso de um já velho situacionista da nossa praça. Ele, do alto da cidadela técnica das percentagens e das médias aritméticas dos arranjos partidocráticos, falou de tudo um pouco e inclusive de alguns pormenores sórdidos da sua vida política. Vida essa agora interrompida por um negócio subsidiário do "serviço prestado ao partido" anos antes, na candidatura a uma câmara qualquer que ele talvez nem conhecesse bem e ,onde, a tal cidadela tecnicista de leitura do social não resultou. Mas ele lá disse que aprendeu.

Eu nada aprendi entre conceitos mal importados e conversa de botequim do mais do mesmo, sobre o mesmo do mais e o situacionismo porreiro que deve mudar, aqui e ali, mas não muito para não assustar o meio milhão ou o milhão que vota dentro do centrão; e para dizer aquilo que os silenciosos esperam ouvir quando se quer assaltar o poder.

O homem continua a prestar serviços, depois de outros tantos arranjinhos e "porreirices", dos que enriquecem com a política e têm bons amigos em bons lugares. Mas nada do que ele faz é ilegal, pois a lei permite-o! E é verdade, se bem que depois de facto analisado ainda resta em alguns aquela revolta do wishfull thinking que exige a Moral e a Ética acima da lei; pois continuamos no plano do desejar a, almejar a. Senti essa revolta.

03/12/2008

Exilado

Acordo cedo para ir à espreita da nova lista bibliográfica que me levará para outras terras e outros sonhos, pois só sonharei lá estando. E essa lista arranca com Vamireh Chacon e a História dos Partidos Brasileiros, passando pela Filosofia Política de Miguel Reale (na secção de Filosofia da BFDL) e navega pelos manuais de Amado Luís Cervo. No entretanto releio o meu preferido Gilberto Freyre, que agora pode ser descoberto sem cartilhas tropicalistas, em "Sobrados e Mucambos"; não é hábito neste espaço recomendar livros mas é impossível resistir a uma obra destas, principalmente o capítulo V onde Freyre chega a explorar a temática da libertação sexual pós-colonização. Já que estou nesta onda recomendo "O Governo Presidencial e a Sustentação Parlamentar: uma História Trágico-Marítima?" de Octávio Amorim Neto, texto este inserido na compilação "20 Anos da Constituição Cidadã: Efectivação ou Impasse Institucional?" (onde podemos encontrar texto outro, esse de Jorge Miranda).

E não posso esquecer os escritos do Sérgio Buarque de Hollanda, que apontam para o futuro, mas que entendem o presente do aqui e do lá: "é possível acompanhar, ao longo da nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma coordenação impessoal. Isto ocorre mesmo onde as instituições democráticas, fundadas em princípios neutros e abstractos, pretendem assentar a sociedade em normas antiparticularistas."