25/11/2008

Heróis e Conselheiros de Estado


Não pude ficar indiferente às novas sobre o caso Dias Loureiro aka Conselheiro do Presidente da República desta velha Nação, com velhos costumes. Cavaco serviu-se, de novo, das ferramentas técnico-jurídicas do bom tecnocrata para falar em Direito, mas o que eu queria mesmo era um Presidente da República capaz de falar em Ética.

Mas a pergunta de partida deve ser feita na raíz do problema, pois de que forma se convida para um cargo destes pessoas tão idóneas como Loureiro ou Coelho? Cavaco salvaguardou-se por agora, escudando-se em actuar de forma racional, optando por frisar o elemento psicológico da relação de mais de vinte anos com o seu conselheiro (neste capítulo deixemos os psicólogos fazerem o seu trabalho, que eu, da cidadela de cientista político apenas entendo ingenuamente o empírico).


No Show do Mário, Eanes deixou a carapaça do senhor in control para assumir o verdadeiro papel que não vem nos manuais de História nem nas enciclopédias. Assumiu que ia ler o novo livro do Pires Veloso (que recomendo para quem gosta do contraditório) com o olhar dos inquisitoriais em busca de marcas que atentem contra a sua dignidade; foi o Ramalho Eanes que sempre quis ver e ouvir, para que se prove o contrário da imagem que tantos heróis em Portugal tentam provar: a sua não-imagem perpetuada; pois engane-se quem pense que por trás daquela pose institucional não vive um ser amante de poder e honrarias.

23/11/2008

Da Génese

Perdoar
Perdonare
Pardon
Forgive

Para doar, para dar

22/11/2008

Estudo para uma Nova Literatura

Continuo isolado do mundo comum, pois será no invulgar que encontrarei as réstias de mim mesmo, e recolhendo-as far-me-ei como o anti-ser que era antes de o ser. Caminho pelo vale da literatura que pulsa em mim, vigiando daí as plácidas montanhas e as saturninas escarpas, os pássaros que me oferecem asas de filigrana, os poetas entoando graçolas, os dragões que trazem a noite.

18/11/2008

Catch-All Taxi Drivers

Assisti à pouco à conferência dada pela ex-ministra da educação, entre a bandeira lusa e a americana. Lá ela falou de como era importante um semestre inteiro sem jogo democrático; o PS reagiu e o PSD contra-reagiu numa sucessiva de conferências de imprensa e de jogos de palavras. Mas não me convenceu o argumento de Martins, pois me parece mais que a senhora ex-ministra e ex-secretária de Estado estava mais preocupada em aplicar uma técnica de catch-all ao taxista médio, unidade sociológica que busca a romântica imagem do Estado Novo, ou dos outros Marqueses de Pombal que passaram pela praia do unilateralismo.
Continuamos em repetidos jogos de palavras entre ex-ministros, que querem continuar ex- para que se perpetue a imagem plácida de quem sempre finge nunca ter responsabilidade. Quanto a Martins continuo a percebê-lo, afinal de contas ainda há quem tenha de defender a cidadela das liberdades contra os autoritarismos que assolam, não o sistema judicial nem o político mas sim nós mesmos contra o sentido de humanidade.

Estado de Espírito

Sem você,
Sem amor,
É tudo sofrimento.

Pois você,
É o amor,
Que eu sempre procurei em vão.

Você é o que resiste,
Ao desespero e à solidão,
Nada existe,
E o mundo é triste,
Sem você.

Meu amor, meu amor,
Nunca te ausentes de mim,
Para que eu viva em paz,
Para que eu não sofra mais,
Tanta mágoa assim,
No mundo,
Sem você.

Tom Jobim/Vinicius de Moraes

14/11/2008

Homenagem ao Malandro

Eu fui fazer um samba em homenagem
À nata da malandragem, que conheço de outros carnavais.
Eu fui à Lapa e perdi a viagem,
Que aquela tal malandragem não existe mais.

Agora já não é normal,
O que dá de malandro,
Regular profissional,
Malandro com o aparato de malandro oficial,
Malandro candidato a malandro federal,
Malandro com retrato na coluna social.

Malandro com contrato,
Com gravata e capital,
Que nunca se dá mal.

Mas o malandro para valer,
Não espalha,
Aposentou a navalha,
Tem mulher e filho e tralha e tal.
Dizem as más línguas que ele até trabalha,
Mora lá longe chacoalha, no trem da central.

Chico Buarque

13/11/2008

Do Socialismo

Do Socialismo no Partido Socialista muito pouco teremos a acrescentar do que já tem sido dito por outros: tanto aqueles que estão fora (esquerda da esquerda) como os que estão dentro e que fazem caixa de ressonância de um discurso legitimista, para provar que isso do Socialismo é algo que deve ser puxado ao centrão, no "quanto mais máquina melhor". Mas ontem, mais numa dessas minhas noites políticas tive a honra de presenciar a um dos actos de mais pura lealdade, moral e ética; e em alguns anos, senti o orgulho de um PS que ainda borbulha atrás da máquina e que está preparado para ser fiel às suas origens, que remontam atrás do soarismo e de outros ismos da reviralha centrão.
Não era acontecimento de terceiras vias mal importadas, nem muito menos discurso Bernsteiniano, mas sim as palavras da revolta e da "resistência", contra este partidarismo que parte as pessoas e não a representação da sociedade e que, por estar longe desta não a reconhece e se esconde em maiorias apoiadas por ex-MRPP's e ex-anarco-sindicalistas. Mas sim a voz dos que estão contra a teoria dos jogos com que temos vendido o sonho; os que estão contra o esvaziamento. Ontem voltei a sentir orgulho. Obrigado!

10/11/2008

O Mundo Lusófono

Não será apenas o sonho Portugal, que é o sonho das Nações sem fronteiras, da alma mater e do império anti-império, mas também o sonho de sermos nós mesmos, crianças, eternos imperadores do mundo.

O século que terminou há oito anos anunciou a descolonização, os movimentos sociais, a luta contra a tirania, continuando a busca eterna pelo melhor governo dos povos, das Nações e das pequenas comunidades contra os imperialescos projectos e contra o Deus-Pai, tirano, chefe de família e da oikos. E chegou a democracia, ainda diamante e não calhau pois é promessa e vivência de poucos; e anunciou-se a abertura das fronteiras, tal como aconteceu na Europa pós II Guerra Mundial com o Mercado único e onde vivemos placidamente numa paz continuada, onde os territórios mantém-se apenas nos corações dos homens tornados cidadãos. Noutros pontos do globo, outros continuam apenas cidadãos de Estados e vivem revoltosos na luta pela comunidade e pela Nação, contra a tirania da burocrática máquina estatal, pela busca do sonho da pertença.
O Estado de Direito, aquela conquista do ocidente agora transformada bandeira, é o acervo do Homem em busca de si próprio pela Justiça e pela Liberdade; mas não chegou a todos como as trademarks que palmilham montanhas na Ásia Central e lagos na África subsaariana.

Quanto à comunidade lusófona deveríamos continuar esse projecto que um dia Sérgio Buarque disse ser o de viajarmos pelo mundo fora, de arquipélago em arquipélago, de não termos terra e, tal como disse o outro Buarque seu filho, sermos heróis e reis fazedores da lei que nos obrigasse a ser felizes. Seria apostar no projecto da Cidadania Lusófona, tal como Cabo-Verde já o fez, seria estabelecer uma Universidade Cearense agregada à CPLP; na criação de um outro patamar de liberdade com a livre-circulação das gentes de língua portuguesa nos vários arquipélagos criados pelo Homem português de sempre; no estabelecimento sem complexos de inferioridade de um centro de estudos lusófonos, que congregasse todos os tipos de saber, fora da maquinaria estatal mas ao serviço dele, na busca da melhor comunhão.

Sermos capazes de ultrapassar os modelos importados de teóricos, da Europa bruxelizada e dos tecnocratas, para buscarmos o sonho comunitarista português, ao lado da Justiça contra o monopólio burocrático e castrador da criatividade, já depois do pai tirano, depois da oikos, antes que nos tornemos máquina ou número. Pois “mais do que nunca é a pessoa ameaçada do homem que reclama a transcendência no espaço e no tempo, escolhendo-se como promessa da única eternidade, a da alma que nos individualiza, contra o robot que nos ameaça”[1].
Que se faça a idade do Espírito Santo numa comunidade de língua portuguesa!


[1] Mário Cláudio, Textos Sobre a Ideia de Pátria in Segunda Edição da Revista Águia, nº1, Setembro de 2008.

07/11/2008

Da Poesia

Continuo a lembrar, talvez em vão, de que é preciso inlcuír uma dose de lirismo na política, como já nos avisou Manuel Alegre. Sem poesia, a política resta o fundo de armário dos burocratas e tecnocratas e dos fazedores de indústria robótica que todos os dias nos tentam vender o modelo do comprador-vendedor de fim de semana, sem mais vida para além disso.
É precisa poesia para que a política partidária deixe de ser mero elemento do sobe e desce para alguns e engenharia mecanicista e industrial para outros. São precisos partidos-comunidade, partidários do cívico, numa participação plural. Estes têm de ser verdadeiros palcos da participação da sociedade civil, deixando-a, também, respirar, ser ela própria para que a consciência democrática e comunitária banhe as praias do unilateralismo e da máquina partidária, ainda filhas e netas da Inquisição e do corte iluminista à la portugaise. Porque não começarmos por institucionalizar o lobby?

04/11/2008

PREC Times


Voltámos ao processo de nacionaliação/privatização, entre revolutionaries e post-revolutionaries deste presente feito dessa súmula gasta. Ontem passei pelos quatro canais e não me apeteceu ouvir nem os accionistas nem os marxianos, pois tem de haver um outro mundo para além desta divisória absorta, importada de um qualquer bunker onde nunca chegou nem Kant nem Rousseau, ou onde os homens são apenas pedrinhas no rolamento da máquina burocrática, a mesma que ainda resta da revolução industrial.

Depois foi a jantarada dos oficiais que oficiosamente vão ameaçando o actual regime que eles próprios montaram mas que agora está contra eles, quando lhes corta os subsídios; é interessante notar que nem 1/3 dos portugueses tem acesso às mesmas avenças e subvenções. E fica outra vez provado, para que a história sempre se repita, que o regime cairá de podre por dentro, depois de outros tantos Humbertos Delgados e Santa Marias e das crises económicas que assolam o corporativismo dos senhores capitães que choram babo e ranho para subir na hierarquia ou para verem garantidos os seus direitos. Talvez seja por isso que estamos dilaceradamente de acordo com a entrada da Turquia na União Europeia: existe um sentimento de que algo nos une.

01/11/2008

Cadernos de Londres V

Quantos artistas,
Entoam baladas,
Para suas amadas,
Com grandes orquestras,
Como os invejo,
Como os admiro,
Eu, que te vejo,
E nem quase respiro.
Quantos poetas,
Românticos, prosas,
Exaltam suas musas,
Com todas as letras,
Eu te murmuro,
Eu te suspiro,
Eu, que soletro,
Teu nome no escuro.
Me escutas, Cecília?
Mas eu te chamava em silêncio,
Na tua presença,
Palavras são brutas,
Pode ser que, entreabertos,
Meus lábios de leve,
Tremessem por ti,
Mas nem as sutis melodias,
Merecem, Cecília, teu nome,
Espalhar por aí.
Como tantos poetas,
Tantos cantores,
Tantas Cecílias,
Com mil refletores,
Eu, que não digo,
Mas ardo de desejo,
Te olho,
Te guardo,
Te sigo,
Te vejo dormir.
Chico Buarque