26/08/2008

Carta ao Professor-Poeta II


A Paixão da Vida e a Ânsia de Imortalidade em Miguel de Unamuno

“O que primariamente somos é anti. Depois logo decidimos o que havemos de ser”
Miguel de Unamuno



Miguel de Unamuno pertence à escola de autores espanhóis contemporâneos da derrota espanhola em Cuba contra os Norte-Americanos em 1898. Juntamente com ele surgem Baroja, António Machado, Valle-Inclán, Azorín e Ortega y Gasset, questionadores da condição espanhola na sua matriz nacionalesca, visto que pela primeira vez em cerca de quatrocentos anos os espanhóis se voltavam para si, depois de uma campanha colonial. Projecto intelectual que os nossos contemporâneos apenas iniciariam quase um século depois, num processo bem mais moroso e com outras variantes e com outros estadistas que não os espanhóis.

Ele vem para marcar pela sua diferença, impondo o modelo da contradição como meta do Homem ocidental e europeu. Queria conquistar um espaço dentro das fronteiras da própria realidade que era dele, fugindo ao Deus eclesiástico que o prendia no real e no nada. Desta forma Unamuno poderia construir-se como um ser meta-físico, que perdurasse na imortalidade da sua obra na vida terrena. A busca do racional no tudo fá-lo afirmar que “mi réligion es buscar la verdad en la vida y la vida en la verdad”, pois que é no racional que o Humano se deve abrigar, libertando-se das chagas do não inteligível e do mistério que encobre e que não deixa descobrir por detrás do nevoeiro o tudo.

Este Deus fora da Igreja é, também, a vivência do tal complexo de Deus novelístico em que o autor suplanta as personagens quando decide a sua vida, as suas decisões e, por último, as decide matar quase que de forma sádica. É um existir para além da vida que perdura na sua vida terrena, no materializável da sua obra que deseja imortal. Ser um meta-Deus, que escolhe o próprio destino mesmo depois de morto e face a um Deus imaginado que ele acha detentor da verdade e com quem ele luta incessantemente. Ter medo do nada fá-lo procurar a razão em tudo e o tudo no nada. Tal como nos diz Manuel Laranjeira, Unamuno “quer crer e não pode crer, deseja ter fé e não pode sufocar a dúvida – eis a tragédia.” O nada é, então, uma injustiça. O mistério é uma injustiça. A verdade absoluta é uma injustiça. Deixai-me, então, descobrir e encontrar nisso Justiça tamanha.

Unamuno receia a morte pois a reconhece como o derradeiro regresso ao nada em contraste com as lutas incessantes na vida física. As lutas no encontro do tudo no nada. Tal como Torga vive a angústia de confrontar o mundo e não ver nele sinais do seu mundo poético, anti-dogmático, puro. Defendem a sua fé numa regra não lógica tornada lógica pois tentam esbater a outra fé com uma outra libertária, ou seja, com uma outra essência que dá lugar a esta nova forma de encarar o sagrado. Torga assume uma nova religião quando consagra a poesia e Unamuno consagra a contradição, a ciência e o que é problemático – são as suas fés.

A religião tem de o ser deixando o totalitarismo de lado, elevando o conhecimento do sagrado e do religioso numa busca pela liberdade última – uma religião comunhão. Torga vai procurar, então, consagrar um meta-Humano, um ser que, baseado na racionalidade e na nova fé libertária seja poeta. Seja cantante da vida e do mundo. Esse poeta é aquele que busca a perfeição, que elimina palavras, que recicla o texto em busca da palavra perdida, pois é este acto divino. O poeta é do contra, tal como o Homem ocidental de Unamuno, buscando pela perfeição o dom da palavra, a pureza dos sentidos. Ele reconhece, até pela sua actividade profissional, que a morte é uma inevitabilidade e que nesse momento não pode contar com Deus. Nessa altura sente-se contrariado por Deus que concedeu aos homens a mortalidade. Ele não vê nisso nada de sagrado. Unamuno resolve isto ao achar-se imortal, ou seja, ao renascer por querer sentir-se imortalizado, encontrando nessa busca os meios para atingir esse mesmo fim. Agarra-se a Deus no último instante, não como fé mas por necessidade.

25/08/2008

Carta ao Professor-Poeta I

Caríssimo Carlos Carranca,

Foi com entusiasmo que visitei as páginas de “O Sentimento Religioso em Torga e em Unamuno” descobrindo, que já estou paralelamente, algumas visões de ambos os autores e, especialmente, de Miguel de Unamuno. Como é óbvio não posso escrever um texto que se equipare tanto em iluminação e em conteúdo sobre este tema como fez o professor, mas pensei em trocar alguns apontamentos que fiz a caneta no exemplar autografado que me enviou. Esperando o interesse recíproco apenas com o intuito de trocar ideias, debater e questionar à maneira dos grandes sábios e mestres que rejeitaram as dogmáticas pressões de certas estruturas e que, sozinhos procuraram a sua própria fé, o seu propósito. Neste leque de personalidades falo certamente de Miguel Torga e de Unamuno que rejeitaram o “torcer” em nome de outros princípios que não os seus e que nos honraram com obras, palavras e sobretudo sentimentos que devem perdurar – da pertença, do afecto, da luta e da obstinação. Devemos, também, honrá-los com os infindáveis estudos que lhes prestamos reconhecendo que “não há ciência livre de valores", pois é na troca e na descoberta que fundamentamos a verdadeira episteme e a tal doxa que não deve ser totalmente separada da primeira. Outra vez afirmo que não tenho a capacidade de fazer real episteme, ficando-me por uma simples doxa que deverá suscitar mais questões do que respostas.
Preocupações Religiosas em Torga e em Unamuno

Se “louco é todo o indivíduo que não vive poética ou religiosamente” é também verdade que o problema da fé ultrapassa a simples fronteira da realidade, isto é, do mundo dos vivos. É a vida depois da morte que persegue Unamuno, vida essa que deve ser “preparada” enquanto podemos respirar. É por essa razão que o fundamental é o Homem pois é nesse encontro com aqueles que nos são mais próximos que conseguimos estabelecer uma relação mais fiel com a imagem que criamos superior e sublime – Deus. Esse Deus é criado à nossa imagem, distorcendo o princípio católico de que somos todos subprodutos dele. O catolicismo, única estrutura religiosa mais próxima de Unamuno e de Torga nunca os poderia seduzir, não só pela característica dogmática de qualquer religião mas também pela densidade da sua presença nas duas sociedades ibéricas. Se hoje a sublimação religiosa é para nós ocidentais uma escolha e um caminho à boa maneira deste pós-modernismo em que vivemos, também é patente que a sociedade assente nos preceitos judaico-cristãos não deixa de existir, sendo uma fatalidade certos valores que nos são próximos. Tanto Unamuno como Torga pertenceram a sociedades ainda densamente embrenhadas nesse catolicismo, por vezes catolaico, mas que servia outros princípios políticos e morais que suprimiam a condição humana.

Por outro lado ambos aceitam a tal sublimação religiosa como parte integrante da vida do Homem na Terra, talvez como um elemento poético produto da imaginação, sabendo que a dogmática interpretação é apenas um resultado pobre dessa concepção sagrada da vida. Rejeitam, pois, os grupos que pensam deter o monopólio da verdade e da racionalidade última seja através da liberdade intrínseca (Torga) ou pela libertação das “provas tradicionais da existência de Deus” (Unamuno).

É na inevitabilidade da morte e no sagrado que é a imortalidade que os dois autores se encontram, estabelecendo-se a tal união ibérica testamentária do princípio da busca do cariz imortal na obra humana. A procura da morte, melhor a procura da explicação do sentido simbólico da morte pela racionalidade é, também, ela procura da génese do Humano, da sua História e do seu próprio génesis. É por esta razão que Miguel Torga nos fala em palavra perdida, como paradigma dessa busca infernal não só pela perfeição como da eternidade e do eterno sagrado pela sublimação. A palavra perdida constitui-se como uma realidade superveniente e não subsidiária dessa outra poesia que é a religião. A busca pela palavra perdida é, também, a busca pela perfeição entendida em si e para si. Essa perfeição que busque a racionalidade, a liberdade intrínseca que se apresenta em potência, pronta como capacidade de cada ser humano, à laia da concepção socrática das capacidades inatas em contradição com a busca do sagrado no catolicismo.

Essa busca leva Miguel Torga a enfrentar-se com os fantasmas do seu passado em que a presença religiosa se mostrava marcante. A religião de Deus mancha a sua infância e contradiz esta busca racional, intelectual que nega a existência de Deus e a busca do sagrado pela contemplação religiosa sem questionamento. Torga não aceita a fé sem questionar, sem a problematizar. E sabe que para problematizar precisa de destronar a fé em função da verdade, do debate, em nome do conhecimento e dessa busca última que preferiu chamar-lhe de palavra perdida. É a partir daqui que Torga desconstrói o seu mundo artístico balizado por um lado pela liberdade e, por outro, pela presença da religiosidade. O confronto entre estes limites deixa ao poeta a construção de um mundo baseado na pureza original, como se quisesse viver uma nova infância sem a presença do elemento religioso. A palavra perdida torna-se o objectivo desta busca num caminho trilhado entre a liberdade, o problematizar e a pureza que só o estado da primeira idade era capaz de oferecer.

O mundo e a vida devem ser cantados pela poesia e não têm de estar enjaulados segundo um dogma, uma norma inquestionável e de armadura defensiva. A vida e o mundo coexistem livremente numa concepção liberdadeira daquilo que é intrínseco em nós. Torga assume-se como um humanista, colocando o Homem no centro, pressupondo que o indivíduo se deve sobrepor a qualquer entidade, a qualquer abstracção. É nesta linha de pensamento que o próprio Fernando Pessoa afirmava que o “Cidadão [deveria estar] abaixo do Estado, mas o indivíduo acima do Estado”, ou seja, a vontade de um colectivo que consentiu formalizar o seu poder perante uma entidade abstracta deve ser correspondido com a autoridade e respeito da condição humana. É a sublimação da condição e a fé nos atributos intrínsecos daquilo que é Humano que Torga se apoia para procurar a palavra perdida, que se sobrepõe à dogmática estrutura, ao modelo de valores consentidos pela pura fé sem problematizar.

Miguel de Unamuno procura a eternidade naquilo que pensa e naquilo que é, defendendo até às últimas consequências a sua própria fé na contradição constante. O problema para Unamuno é uma das etapas dessa eternização da condição humana e também desejo de ultrapassar o tal Deus eclesiástico e severo que o afunda no nada. Defende uma fé pura e livre, entendendo que a procura disso mesmo é contraditória pois que a fé baseada em princípios e valores não resiste na problematização. Temos pois de centrar a sublimação do sagrado nos próprios fundamentos do conhecimento, contrariando a simples acumulação e elevando o debate através dessa mesma problematização constante. A fé teria de ser debatida e elevada em tom de conhecimento através das individuais percepções do sagrado que suplantassem o dogma e a tal armadura de valores e de moral. É por isso que tanto Torga como Unamuno vão defender um Deus mais Humano, ou seja, falível e libertário, mais perto do Homem e da sua intelectualidade. Um Deus inteligível e sensorial fora das estruturas da Igreja.

24/08/2008

Uma tirada da UnB:


http://www.secom.unb.br/entrevistas/entrevista.php?id=43

A Idade do Espírito Santo



Continuo em exílio em busca de um exterior quão rico como o interior. Saboreio as palavras de Agostinho da Silva e continua a faltar um Portugal. O Portugal do mundo. O Portugal da poesia. O Portugal da metafísica. O Portugal dos povos unos em finis terrae.


Enquanto sobrevivermos complexados entre modelos importados e burocracias malfadadas, política sem Ética nem Justiça que assinale os erros, para além da lei e do direito dos magistrados de capa de super-herói, faltará cumprir-se Portugal para além do Bojador. E enquanto outros povos clamam plea idade do Espírito Santo, porque não trazer de volta ao mundo o menino imperador?

14/08/2008

Exílio VI


O amor,
Mostrengo em abraço armilar,
Une teias de tecido, pele,
E língua, sim Língua,
Portuguesa em viagens de caravela.


Lisboa, 29 de Julho de 2008

13/08/2008

Exílio V

Para lá dos clássicos ensinamentos de filosofia política, a Rússia emerge num pós-bipolar já sem Gorbatchev ou Yeltsin. Na Geórgia não sobrevive a União Europeia, atarracada entre portas, de costas para o Mar Negro. A democracia não é para todos. E a que subsiste é a dos eurocratas.
Antes do Bojador as comunidades vão vivendo num gerir de sobrevivências, esperando o além da dor, do desespero e do fim dos conflitos. Não era a democracia o último regime, não o seria representativo do fm da História, e muito menos seria ela o regime que institucionalizaria a paz mundial. Continuaremos seguindo, num propósito complexificante de mundos ainda por descobrir, de palavras por dizer e de transformações e dores por ultrapassar.

11/08/2008

Exílio IV

Num dos intervalos do relatório de estágio final, de umas quantas pautas e de uma outra aventura literária e esperando, sem medo de usar o gerúndio, pelo exílio que se aproxima, observo que o jogo das grandes potências não se alterou. A UE continua gigante económico mas anão político e o Putin põe-se em bicos de pés para que os EUA não se esqueçam que o muro já caiu. Enquanto isso outros choram a partida dos filhos, e outros tantos não chegam nem de perto aos níveis de vida prometidos pelos eurocratas e racionalistas progressistas, que afinal nunca chegaram a ler Max Weber.
A chamada fronteira europeia não é mais do que uma cintura sanitária para isolar l'éspace protegé de derivas democráticas e comportamentos atípicos de Estados ainda sem ASAE ou sem funcionários abonados que vivem do rame-rame juridificante sem criatividade nem Jellinek que nos valha. Restam-lhes os senhores da guerra. A nós restam os regulamentos e as teorias dos ex-ministros.