10/02/2007

Terrorismo de Laboratório

Vivem-se tempos neo-positivistas neste país plantado à beira mar ainda com pretensões poéticas e não merecedoras de métodos do corte orçamental e do compadrio intelectualizante que prolifera. As reformas sempre serviram quem já estava de poleiro, no tal clima de total sabichise, subsidiária dos aventurismos desmedidos e sem planificação prévia.

Esta separação entre Ciências Naturais e, tomadas como científicas, lembram outras purgas cientifistas dos princípio aquando da primazia dos métodos naturalistas face a uma filosofia que se separava em moldes científicos. Em Portugal as ciências têm o nome de Naturais e fazem-se em barracões laboratoriais onde abundam bebés proveta e certos situacionistas. Estamos, finalmente, rendidos à tal verdade absoluta. Bastou-nos um século para começarmos a desvalorizar as Ciências Sociais para o campo meramente metafísico, bucólico porque de simples contemplação (contemplação para quem contempla a partir da cadeira do poder) e filosófico. À Filosofia podemos muitas vezes associar uma poética maneira de estar, um certo método literário, mas no campo das Ciências Sociais o estilo e o método são outros que tais. Por serem e se constituírem como Ciências e, porque já longe das investidas filosóficas (das filosofias políticas por exemplo) gozam de uma autonomia analítica e metodológica próprias.

Tal como Alain afirmava que “penser c’est dire non”, eu também acredito na reformulação do estado de coisas, num repensar constante, numa busca pela deconstrução, processos que as actuais ciências sociais vivem. Neste modelo em que sucedem Aristóteles a Platões de batas brancas é, também, preciso repensar o estatuto das carreiras de docente e de investigador no seio do mundo universitário, bem como numa aplicação realista da ligação entre academias e o Estado, não pela subsidio-dependência de que já somos frutos, mas por aquela utilização devida do conhecimento do inteligível para a boa prossecução dos princípios desta autarcia na busca do bem comum.


Numa sociedade de informação, de que fomos pioneiros, devemos incluir o engrandecimento das pobremente chamadas “Humanidades” para aquilo que nos EUA já se faz há décadas, numa aposta do conhecimento académico para a valorização do Estado e do estado de coisas. A mera importação de modelos secundários (incluídos no pacote do Plano Tecnológico) impõem-se-nos o arranjo de computadores e a catapulta para uma outra Índia à beira Atlântico, que desperdiça uma vez mais este poder criativo e original dos portugueses. Deita, assim por terra o sonho em detrimento deste depressivo ambiente que Ortega y Gasset enunciava como o “terrorismo de Laboratório”. Façamos dos conceitos conhecimento e investigação sinónimos desse “admirável mito europeu” que é a Ciência. Façamos real episteme e não tenhamos medo de a apelidar de Ciência.

08/02/2007

O Sim é pelo Não aos Corporativismos Obscurantistas


O debate tem continuado, numa sociedade que se quer crítica, pois que pós-moderna, mas roçando aquilo que António Sérgio apelidava de culto à sabichise, muito própria de quem contempla a beleza das suas armas argumentarias.

Servindo-se da indumentária religiosa, moral e até de alguns complexos de esquerda que trazem sempre consigo as vicissitudes de um laicismo doentio, da esquerdalhada e não da verdadeira esquerda plural. De novo as franjas ganham espaço, não é que seja situacionista e muito menos dos que se dizem não situacionistas e se assumem como actores daquele dever-ser que quer o tudo do mesmo, mas a abstenção tem ganho espaço e a participação tem perdido com iniciativas paralelas sobre a discussão da vida e dos sempre filósofos de última hora que sabem ter perdido o referendo de dia 11 de Março. Os partidários do sim também se têm desviado do essencial, bastando o jurista de montra que é o Prof. Vital Moreira que, gentilmente e, tal como um verdadeiro mestre, tem elevado o debate.
Também não se coloca de forma profunda um debate acerca da saúde da mulher que decida abortar, que já estão a ser preparadas quando o sim ganhar, designando-se as variadas técnicas de higiene ginecológica.
Outros dos problemas que o não tem desviado prende-se com a liberdade da mulher e com o continuado paternalismo da nossa sociedade, puramente latina e observada no obscurantismo de certos colectivismos e complexos de Édipo. Quem vota não também proíbe a liberdade última da mulher, de decidir, de optar, pois a realidade que aqui estamos a discutir continuará a existir com ou sem despenalização jurídica da mesma. A única diferença é que o não é pelo sim ao aborto clandestino, é pelo sim à falta de cuidados de saúde. O não defende os tais corporativismos escondidos em vãos de escada que se repetem nesses prédios de Lisboa e das outras cidades e vilas onde certos técnicos de saúde e outros que tais repetem a ilegalidade que é pôr em risco a vida das mulheres. O não quer continuar a defender certos obscurantismos de corporativismos, pelo negócio e pelo empurrar para o escuro algo que continuará a existir e que, pela sem-vergonhice deve ficar bem escondida dentro dos parâmetros de alguns para alguns.
O sim é pelo não à imposição legal.